Recordista de homicídios em São Paulo, a RMVale (Região Metropolitana do Vale do Paraíba) transformou-se em um campo de batalha entre o PCC (Primeiro Comando da Capital), facção nascida em Taubaté em 1993, e três organizações criminosas rivais vindas do Rio de Janeiro: o CV (Comando Vermelho), o TC (Terceiro Comando) e o ADA (Amigos dos Amigos).
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Revelada com exclusividade por OVALE, por meio de reportagens em série publicadas desde 2018, a disputa de território pelas organizações criminosas foi destaque da BBC News Brasil nesta semana.
Em 2024, a OVALE, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), admitiu a existência da guerra entre as facções na RMVale.
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Em entrevista concedida a OVALE, o governador explicou que a posição geográfica da região atrai o interesse direto das cúpulas criminosas do Rio de Janeiro, gerando um forte movimento de contenção por parte do grupo hegemônico local.
"E isso é um reflexo da proximidade com o Rio de Janeiro. Isso é o crime organizado tentando, com as facções criminosas do Rio de Janeiro, ingressar no território de São Paulo e a contenção da facção hegemônica de São Paulo. É o Comando Vermelho, Terceiro Comando e Amigo dos Amigos contra o PCC. Eles tentam entrar no território paulista e são contidos, mas aí tem disputa pelos pontos de drogas. É por isso que os índices de homicídios no Vale do Paraíba são muito maiores do que no restante do estado todo. Há uma hegemonia de uma facção no estado todo [PCC] e há uma disputa no Vale do Paraíba. Por isso que eu falo, o tráfico de drogas é uma coisa muito séria, muito grave, e precisa ser combatido", afirmou o governador.
"O Vale sofre mais porque sofre a tentativa de invasão de facções criminosas que estão no Rio de Janeiro e estão tentando entrar no território de São Paulo. 80% dos homicídios ocorridos no Brasil estão relacionados a disputas por pontos de tráfico de drogas e é por isso que o Vale é mais violento, porque existe de fato uma disputa entre facções", afirmou Tarcísio à época.
A engenharia por trás da infiltração do Comando Vermelho e de outras siglas do Rio em território paulista começou há cerca de uma década. Investigadores apontam que, na época, o PCC concentrou grandes volumes de capital e esforços no tráfico internacional de drogas (focando na exportação em larga escala através de portos), diminuindo o foco no "varejo" das biqueiras locais.
Ao notar esse vácuo de poder regional, as facções cariocas iniciaram um movimento de ocupação pelo Vale Histórico (com destaque para Lorena, Bananal e Cruzeiro) e por cidades litorâneas vizinhas ao estado do Rio, como Ubatuba e Caraguatatuba. Quando o PCC tentou retomar o mercado regional, o antigo equilíbrio criminoso foi quebrado.
O avanço do Comando Vermelho não se limitou à RMVale. O monitoramento policial aponta que a facção do Rio estendeu seus tentáculos em direção ao interior de São Paulo, usando as mesmas táticas de infiltração nas regiões de Araras, Piracicaba, Rio Claro e Limeira, além do Sul de Minas Gerais.
Com o acirramento da disputa pelos pontos estratégicos de escoamento, o confronto tático transformou o cotidiano das comunidades. Execuções passaram a ocorrer em plena luz do dia, muitas delas com o uso de armas de grosso calibre e fuzis de uso restrito das Forças Armadas.
De acordo com relatórios do Ministério Público, o monitoramento identificou uma sucessão de crimes violentos iniciada de forma mais intensa em 2022. O conflito atingiu um patamar de extrema crueldade, incluindo o assassinato de lideranças locais e chacinas cometidas como retaliação direta a baixas anteriores, alimentando uma cadeia de vinganças sucessivas.
Para além dos homicídios, a guerra passou a ser marcada pela prática de carbonização de corpos em pneus — método conhecido no submundo do crime como "micro-ondas". Fontes do setor de inteligência apontam que essa prática cruel é adotada estrategicamente pelas facções com três objetivos claros: apagar vestígios que facilitem as investigações policiais; impor o medo generalizado à população civil; enviar recados claros e violentos de domínio territorial para os grupos rivais.
O impacto direto dessa guerra entre facções reflete-se nos índices de criminalidade.
De acordo com o mais recente levantamento exclusivo realizado por OVALE, com base nos dados oficiais da SSP (Secretaria da Segurança Pública), a RMVale e o Litoral Norte continuam liderando o ranking paulista da violência.
O indicador leva em conta o número de pessoas mortas nos últimos 12 meses (acumulado de abril de 2025 a março de 2026). As seis primeiras colocadas são Lorena (taxa de 30,64 vítimas por 100 mil habitantes), Ubatuba (23,66), Cruzeiro (20,01), Caraguatatuba (15,57), São Sebastião (13,49) e Pindamonhangaba (12,69).