12 de março de 2026
CRIME ORGANIZADO

EXCLUSIVO: 'Caixa-preta' do PCC, o organograma secreto da facção

Por Guilhermo Codazzi | São José dos Campos
| Tempo de leitura: 6 min
Editor-chefe de OVALE
Imagem ilustrativa

A caixa-preta do PCC (Primeiro Comando da Capital).
Trata-se do novo organograma da mais temida facção criminosa do Brasil, definida pela Casa Branca como uma "ameaça significativa à segurança" da América Latina.

O novo documento, obtido com exclusividade por OVALE, expõe as entranhas do PCC, organização criada em Taubaté, em 31 de agosto de 1993, e que hoje expandiu-se para todas as regiões do país e já atua em 28 países.

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Tendo o tráfico internacional de drogas como seu carro-chefe, a facção movimenta bilhões de reais, infiltrando-se no mercado financeiro e em outros segmentos estratégicos, inclusive na esfera política e no setor público, entre outros.

Uma multinacional do crime, organizada como empresa, com cúpula, conselho deliberativo e acionistas, corpo jurídico, RH, seção de relações exteriores, sucursais e departamento financeiro, voltada para o crime.

Entendo que o PCC é uma máfia, que está associada a outras máfias”, declarou a OVALE o promotor de justiça Alexandre Castilho, membro do Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado), do Ministério Público, durante episódio especial do OVALE Cast (veja aqui na íntegra).

OVALE dá início hoje a uma série de reportagens intitulada "PCC, a caixa-preta do crime", com três capítulos sobre o organograma da facção que o governo Donald Trump cogita classificar como grupo terrorista (leia mais aqui).

Organograma

O documento revela uma estrutura altamente hierarquizada, com setores responsáveis por comando, finanças, expansão territorial e controle do sistema prisional.
"Sintonia final". Este é o nome da cúpula do PCC, que ocupa o topo do organograma da facção.

Sob a liderança de Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola, hoje preso no Presídio Federal de Segurança Máxima de Brasília, trata-se da instância máxima da organização criminosa, responsável por definir rumos da facção, estabelecer alianças, autorizar operações criminosas e determinar regras internas.

Cabe à "Sintonia final" a tomada de decisões sobre a expansão do PCC para novos territórios, gerenciamento de conflitos e gestão de grandes fluxos financeiros provenientes do tráfico de drogas e de outras atividades ilícitas.

Leia mais: PCC atua para corromper e se infiltrar nos poderes

Quadro dos 14, a tropa de elite da facção

Logo abaixo da cúpula aparece o chamado “Quadro dos 14”, estrutura que funciona como uma espécie de conselho interno da facção, respondendo apenas à "Sintonia Final". É a elite do PCC.

Os "irmãos" (como são chamados os integrantes da facção) convocados para a "tropa de elite do crime" possuem regalias, recebendo, por exemplo, uma remuneração fixa, moradia e veículo, além de ser poupado de determinadas obrigações inerentes aos membros do "Partido", como o pagamento da mensalidade, o chamado "caixote" ou "cebola", ou as rifas e o "progresso".

Esse grupo atua como ponte entre a liderança máxima e as demais divisões da organização. Integrantes desse núcleo são responsáveis por transmitir decisões da cúpula, supervisionar setores estratégicos e garantir que as diretrizes sejam cumpridas nas diferentes áreas de atuação do PCC.

Anteriormente, a 'tropa de elite' era chamada de "Quadro dos 36", porém teve o seu tamanho reduzido para 14 durante reestruturação da hierarquia do PCC.

O grupo dos "14" está dividido em: Norte; Centro/Sul; Leste; Oeste; ABC; Baixada e Interior, tendo cada um deles três divisões (Geral, Disciplina e Financeiro).

Leia mais: PCC foi criado em Taubaté, no ‘Piranhão’

Gravatas: o braço jurídico do PCC

Trata-se do braço jurídico do PCC, responsável pela interface da facção com o chamado “mundo legal”.

Formado por advogados pagos pela facção para defender integrantes, transmitir ordens de líderes presos para as ruas, gerenciar o caixa para serviços de saúde dos presos e facilitar o transporte de familiares. A organização chega a pagar a formação de seus futuros defensores.

“A facção financia cursos superiores. Eles investem nas pessoas, que prestam concurso. Muitas vezes isso é descoberto. Outras não. Pode acontecer. Nós já tivemos casos, que eu não posso externar, mas casos assim que, de fato, mostram que o crime organizado é extremamente ousado”, afirmou Castilho ao OVALE Cast.

Leia mais: Como 'máfia', PCC se infiltra na política e lucra com o tráfico

Setor financeiro, o caixa do PCC

Nesse setor aparecem estruturas ligadas a diferentes atividades de arrecadação e suporte financeiro.

Entre elas estão áreas identificadas como: "Sintonia da Cebola" (mensalidade), responsável pela cobrança de contribuições pagas por integrantes da facção; "Sintonia das Ajudas", ligada à distribuição de recursos para membros presos ou familiares; "Sintonia da Rifa", utilizada em esquemas de arrecadação interna; "Sintonia dos Ônibus", associada a atividades ligadas ao transporte de familiares de presos para as visitas em presídios; "Sintonia dos Cigarros", vinculada ao contrabando e comércio ilegal; "Sintonia dos Pés de Borracha" (veículos), ligada à logística de automóveis usados nas operações da organização.

“[PCC] Eles financiam campanhas, com dinheiro. Campanha precisa de dinheiro. Então, essa é uma oportunidade para o crime organizado, seja ele que tipo for, conquistar cada vez mais poder”, afirmou o promotor no podcast (ver aqui).

Tráfico de drogas lucra bilhões

O organograma também tem um espaço de destaque para a principal fonte de dinheiro do PCC: o tráfico de drogas, chamado de "Sintonia do Progresso".

Entre as subdivisões estão: "Padaria" (produção); "Progresso externo" (venda para o exterior); "Progresso 100% interno" (venda de droga de alto grau de pureza para o mercado interno)"; "Progresso princesinha" (exportação de cocaína); Progresso FM (pontos de venda de droga/varejo), que tem uma divisão (FM SP e FM Baixada).

“A gente vê duas situações de realidade no PCC. O que a gente chama de massa de manobra, que são esses integrantes do PCC que entram nesse ciclo vicioso prisional, e você tem a cúpula, que efetivamente ganha dinheiro com o tráfico internacional", afirmou o promotor do Gaeco.

Leia mais: ‘Cúpula do PCC enriquece com tráfico internacional’

Expansão no exterior

Há uma sintonia específica para tratar da expansão para outros estados e países.

O documento também mostra ramificações fora do Brasil, com menções a países estratégicos para o tráfico internacional de drogas.

Entre eles aparecem Bolívia e Paraguai, rotas importantes para o escoamento de cocaína e outras substâncias ilícitas que abastecem mercados na América do Sul, Europa e África. Essa estrutura internacional reforça a transformação do PCC em uma organização transnacional, com presença em diversos países e capacidade de operar redes logísticas complexas.

"O PCC hoje é essa diversidade. É o tráfico internacional e as lideranças hoje se encontram escondidas na Bolívia. Algumas lideranças ainda estão aqui no Brasil, mas a maioria se encontra escondida na Bolívia”, completou Castilho.

Territórios ocupados

O novo organograma do PCC também mostra como a facção se organiza territorialmente para administrar suas operações.

No nível regional, a facção aparece dividida em setores que correspondem a diferentes áreas geográficas e cada uma dessas regiões possui estruturas próprias de comando, com setores responsáveis por finanças, disciplina e execução de ordens. As áreas chamadas de “disciplina”, por exemplo, são encarregadas de manter o cumprimento das regras internas da facção e resolver conflitos entre integrantes.

No interior de São Paulo, por exemplo, há sete sintonias: 012 (Vale do Paraíba), 014 (Bauru), 015 (Sorocaba), 016 (Ribeirão Preto), 017 (São José do Rio Preto), 018 (Presidente Prudente) e 019 (Campinas). Cada uma delas é subdividida em Geral/Disciplina e financeiro.

Sistema prisional

Outra parte da estrutura está ligada diretamente ao controle dentro das prisões, apontado por autoridades como um dos pilares do poder do PCC. O organograma menciona áreas como: "Colônias" (semiabertos); "Feminina", "Comarcas" (cadeias); "CDPs" (Centros de Detenção Provisória); "Presídios"; Essas divisões indicam a presença da facção em diferentes unidades prisionais e regiões do sistema penitenciário em todo o país.

Com exclusividade, OVALE abre a série 'PCC: a caixa-preta do crime' e revela o organograma da facção criminosa, classificada pelo governo Trump como uma "ameaça significativa à segurança" da América do Sul.