O craque dos bares de São José dos Campos pendurou as chuteiras. E choro e emoção não faltaram na despedida, no último dia 22 de julho, não à toa uma sexta-feira, dia internacional do balcão de bar.
Após 56 anos dedicados aos balcões de bar, Pepe, 82 anos, despediu-se do afetuoso bar que leva seu nome, encravado no Jardim Augusta, região central de São José dos Campos. O local é conhecido em toda a cidade e até fora dela.
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José Fernandez Marful nasceu na Galícia, região do noroeste da Península Ibérica, e veio meninote para São Paulo, acompanhando o pai atrás de trabalho. A mãe morrera antes da viagem. Na Espanha, a guerra deixara uma herança de privações.
Pepe começou a trabalhar numa padaria, em Pinheiros, na capital, e veio para São José na década de 1960, passando a ajudar o pai a assentar azulejos. Nos finais de semana, trabalhava num bar. Gostou tanto que comprou o estabelecimento em 1967 e nunca mais deixou o balcão, onde trabalhou dos 26 aos 82 anos.
Além do bar, apaixonou-se pelo Santos Futebol Clube do seu xará Pepe, craque daquele time de supercraques. Mas foi mesmo Pelé quem encantou o espanhol, que viu o menino ainda franzino entrar em campo no Pacaembu, num Santos e Palmeiras, em 1956.
“Já passou muita gente famosa pelo meu bar, mas o Pelé seria uma honra poder recebê-lo”, disse Pepe a OVALE em 2011. “Se pudesse, ficava o dia inteiro no bar. Gosto da convivência com os fregueses e do trabalho. Minha mulher fica brava e fala para eu trazer a cama”.
Segundo a filha de Pepe, a professora aposentada Josefa Auxiliadora Fernandez Terra, 59 anos, seu pai conseguiu ver Pelé em São José num bar na avenida José Longo, “quando o mundo era menor”, diz ela.
ESPORTIVO
E foi justamente para ampliar o mundo que Pepe abriu seu primeiro bar em São José, ao lado do pai, no centro da cidade, o ‘Bar Esportivo do Pepe’. O estabelecimento durou 10 anos até ser vendido e virar o Bar Taubaté.
No atual endereço, no Jardim Augusta, Pepe estava desde 1976 e ganhou fama como torcedor apaixonado do Santos e por transformar clientes em amigos, tamanho o carinho e atenção que dedicava aos fregueses.
“As pessoas têm afeto pelo bar. Ele tinha um amor grande pelo bar. Não é só empreender, construir e trabalhar. É sentir amor pelo que ele fez. Construiu amizades e com muito amor e carinho. Ele nunca pensou financeiramente ou ascensão social”, conta Josefa, que agora cuida do pai, que está com a saúde já um pouco debilitada.
Após 59 anos de casamento, Pepe perdeu a esposa em 2020, por problemas de saúde, o que também contribuiu um bocado para a decisão de se aposentar.
“Ele está com 20% da visão. A cabeça também e a memória já não acompanham. Ele está bem, mas precisa descansar.”
No entanto, as conquistas de Pepe continuarão ao menos por um tempo. O Bar do Pepe será mantido com o mesmo nome e os deliciosos quitutes que fizeram fama do espanhol, como a omelete do Pepe, a pizza e os lanches.
“Alugamos o bar e o nome será mantido, ao menos por enquanto. Sou a única herdeira e vou permanecer alugando até quando der”, diz Josefa.
TRABALHO
“Ele sempre foi muito trabalhador e gostava de dar emprego para as pessoas. Saiu de outro país e reconhecia que precisava fazer algo pelo outro que o acolheu. O carinho que recebe agora é por tudo o que fez. A atenção como os fregueses, que vão ficar. É paixão”, diz a filha.
Naquela entrevista de 2011, ainda distante dos nossos tempos violentos e polarizados, Pepe disse que ficou bravo uma vez quando um assaltante entrou no bar e o chamou de vagabundo.
“Trabalho 12 horas por dia, de segunda a segunda, e o cara me chama de vagabundo. As pessoas estão perdendo o respeito”, disse na ocasião.
Quem vai manter a imagem de Pepe no bar é Joel Fernandes, funcionário de 26 anos da casa. Segundo ele, o novo proprietário vai dar continuidade ao bar.
“Seu Pepe é uma pessoa trabalhadora, honesta, amigo, gosta de tudo certo. Maravilhoso como patrão e amigo. Ele é muito querido pelos clientes e ficou famoso pela pizzaria e pelos lanches tradicionais, como a omelete, que continuamos fazendo e vendendo.”
Entre as tantas passagens marcantes ao lado de Pepe, Fernandes se lembra da vez em que o espanhol foi ver Pelé em São José. “Ele contava que o Pelé tinha passado por aqui. Nunca mais me esqueci disso”.
E assim como Pelé deixou os gramados um pouco mais tristes, também o balcão de bar ficará entristecido com a aposentadoria de Pepe.
Aos craques, a memória e a gratidão eternas.
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