Brasil

Imprensa, recados de uma eleição

Por Carlos Alberto Di FrancoDoutor em comunicação pela Universidade de Navarra |
| Tempo de leitura: 2 min
Papel. O jornalismo ajuda a fortalecer a democracia
Papel. O jornalismo ajuda a fortalecer a democracia

Recentemente, em reunião com jornalistas e executivos do Grupo Rede Amazônica, fiz o seguinte comentário: "Um fenômeno chegará ao poder. Sem partido, sem dinheiro, sem mídia, sem tempo de televisão e confinado ao quarto de um hospital". Pois bem, amigo leitor, o candidato azarão, quase folclórico, subirá a rampa do Palácio do Planalto na abertura de 2019.

Muitos são os recados dessa eleição disruptiva: Partidos tradicionais, velhos caciques da política, gurus do marketing e alguns jornalistas, habituados ao conforto das jogadas previsíveis, estão nocauteados.

As mídias sociais, mola propulsora da candidatura de Jair Bolsonaro, podem ser a alavanca para um renovado jornalismo de qualidade. As pautas não estão dentro das redações ou escondidas nas nossas idiossincrasias ideológicas. Quero salientar um aspecto que julgo importante na renovação da imprensa: na era digital, a intuição pode e deve ser apoiada pelos números.

Realidades que pareciam alheias aos negócios da mídia estão cada vez mais próximas dos veículos. É o caso do Big Data. A cada dia os acessos digitais aos portais de notícias geram quantidades incríveis de dados sobre o comportamento de nossas audiências, mas ainda não fomos capazes de enxergar o potencial que há por trás desta montanha de informação desestruturada. Nas redações brasileiras multiplicam-se as telas coloridas que trazem, minuto a minuto, indicadores e gráficos mirabolantes. Ao final de um dia de trabalho, qualquer editor está habilitado a responder quais foram as reportagens mais lidas. Mas e depois disso? Continuamos incapazes de interpretar adequadamente todas essas cifras e utilizá-las a favor do bom jornalismo. Tenho a frequente oportunidade de conversar com executivos e gestores de veículos de comunicação, todos responsáveis pelo processo de transição digital em suas empresas. Vindos de diferentes estados brasileiros e de alguns países da América Latina, se reúnem em São Paulo para o programa "Estratégias Digitais para Empresas de Mídia", iniciativa que dirijo no ISE Business School. Em sala de aula cresce a certeza de que as verbas publicitárias não retornarão aos níveis de antigamente e, portanto, os ingressos deverão ser alavancados prioritariamente por meio do conteúdo digital. Como tarefa de casa, levam um desafio nada fácil: olhar para a cobertura de seus veículos e questionar-se se há valor diferencial naquilo que estão entregando aos seus consumidores. Sabem que se a resposta for negativa poucas serão as possibilidades de monetizar esse conteúdo.

Recebem também a missão de colocar a audiência no centro do processo. Já não basta mais que definamos nós o que precisam os consumidores de informação. É preciso ouvir o que eles têm a dizer.

Sou otimista em relação ao futuro das empresas de comunicação, mas não deixo de considerar que o renascer do nosso setor será resultado de um processo de autocrítica..

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