"Vivam a imaginação, pois ela é a nossa realidade mais profunda", defendia a psiquiatra Nise da Silveira (1905-1999). "Felizmente, eu nunca convivi com pessoas muito ajuizadas", brincava.
A mulher, que revolucionou o tratamento da loucura no país, usava a arte para reabilitar os seus pacientes. Graças a ela, ainda hoje a expressão artística é vista como uma forma de renascimento de pessoas com transtornos mentais para a sociedade.
"As manifestações artísticas servem como um canal de comunicação para que os pacientes que sofrem de transtornos mentais graves possam dar espaço às vozes e conflitos internos, além de ser uma atividade terapêutica que contribui com a reinserção social e familiar, bem como a recuperação das próprias habilidades dos pacientes", afirmou o médico psiquiatra Davi Cardoso, que atende no CAPS II (Centro da Atenção Psicossocial), de Jacareí.
Com a proposta de oferecer um atendimento mais humanizado, o tratamento de saúde mental na cidade conta com o auxilio da arte na reabilitação dos pacientes.
Não só pintura, mas artesanato e coral. Este último, aliás, é uma das atividades de maior destaque do serviço. Além de ser a mais antiga, ele é composto por 20 pacientes e já conquistou o respeito e o reconhecimento de toda a cidade, acumulando convites para apresentações.
"A arte como terapia, nos momentos ruins, vem como um alívio", afirmou Erica Sabrina, de 34 anos, um das belas vozes do coro. Ela iniciou seu tratamento após já ter passado por internação psiquiátrica e tentativas de suicídio. "Sou uma outra pessoa. A arte é um tratamento que contribui para se conhecer melhor e achar nossos próprios caminhos de estabilidade".
LUTA ANTIMANICOMIAL.
Esse novo formato de atendimento social é fruto de um longo processo, que culminou com a reforma psiquiátrica, em 2001. O perfil de cuidado, com base nos princípios do SUS, tem como base a universalidade, equidade e integralidade.
O modelo vem, aos poucos, substituindo hospitais manicomiais, cujos princípios se mantém excludentes e opressivos.
De acordo com dado divulgado pela ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar), "aproximadamente 12% da população,
necessitam de algum atendimento em saúde mental, seja ele contínuo ou eventual."
O Caps 2 de Jacareí conta com 900 pacientes referenciados. Mas nem todos são ativos. Entre as atividades terapêuticas oferecidas estão cinema, oficinas de fantoche, pintura, fios, atividades corporais, bijuterias e dança circular.
A grade é elaborada de acordo com a necessidade dos pacientes assistidos, considerando a oferta de materiais e funcionários..