Transição de governo é parecido com véspera de Natal. Lembra o garoto que passa várias vezes embaixo da árvores enfeitada, olha os embrulhos, fica entusiasmado e cria coragem de pegar o primeiro pacote. Ele não abre, pois sabe a regra: só é permitido abrir após a meia-noite.
Mas o garoto teimoso fica manipulando o presente, vai de um lado para o outro, brinca e fica imaginando o que tem dentro. Quando chega a hora certa, o presente é entregue ao menino, que rapidamente rasga o papel. Mas de repente brota um nó na garganta, o fabuloso pacote esconde uma peça de roupa, nada parecido com o brinquedo sonhado.
É como período de transição. O candidato eleito quer logo chegar ao governo, ver a situação das coisas e mandar. Porém, ainda não pode, pois não tem cadeira, nem caneta. Então apenas toma conhecimento dos números da economia, do orçamento e do funcionalismo. Pede mais informação, mas o governo vigente entrega pouco, quase a conta gotas. Enquanto espera, tenta controlar as disputas, os interesses e os egos de todos que querem participar do novo governo.
Mas finalmente chega o dia da posse e ele tem que estar preparado, não para abrir o pacote, mas para descobrir que dentro estão alguns pares de meia da cor bege. Apesar de não ser fácil, é preciso aceitar a realidade, pois o descompasso entre idealização e mundo real geralmente molda o mandato. O governo prometido no palanque tem que ficar para trás, dali em diante é preciso construir um governo possível..