Viver

ARTE QUE LIBERTA

Por Paula Maria Prado@paulamariaprado |
| Tempo de leitura: 2 min
Elas. As arteiras da Santa Cruz
Elas. As arteiras da Santa Cruz

Sob um tecido base, risca-se um desenho prévio. Escolhe então outros panos que combinem com a imagem do resultado final que está na sua mente. E borda, crocheta, tricota, costura e alinhava. Assina. Sobrepõe a frente ao fundo. Fecha. E pronto.

Impressionante como um conjunto de procedimentos pode fazer tão bem à alguém. No caso, as Arteiras da Santa Cruz, grupo composto por cerca de 20 mulheres moradoras da comunidade de São José.

A mudança é significativa. Se antes o preconceito imperava e entrar em alguns ambientes era um verdadeiro incômodo, hoje, os convites não param de chegar, os amigos na rua as reconhecem e elas têm orgulho de dizer: somos artistas.

Fácil? Não é. Mas também não é impossível. A palavra de ordem é persistência. Ficou feio? Desmancha e refaz.

"Eu achava que não ia sair nada! Não ia conseguir... E já estou na minha segunda obra", alegra-se Maria de Lourdes de Jesus Souza, 60 anos, que já ilustrou um cavalo e finaliza agora um anjo.

Magali Oliveira, 31, por sua vez, leva seu filho na escola, arruma a casa e já pega firme na arte. "Paro só na hora do almoço. Mas a tarde faço mais um pouco", contou ela que levou três semanas para terminar uma tribo indígena com bordados em fita, linha, lã e crochês.

Inspiração? "Ah, acho que vem da cabeça e do coração", cravou Eliana Fátima Martimiano, 54. Para ela, a arte funciona como uma terapia. "Me faz muito bem, ocupa minha cabeça".

Sem amarras.

Cristina Demétrio, artista plástica de São José, é a organizadora do projeto. "Há muito tempo eu queria fazer um trabalho como esse. E a oportunidade surgiu depois da doação de tecidos da loja Villemarie", disse. "Em quatro meses, elas já estavam produzindo e vendendo as suas obras".

Ainda segundo ela, a produção sem as amarras que o conhecimento artístico traz faz com que suas alunas consigam produzir sem medo de errar. "Dessa forma a arte aflora naturalmente. O resultado é legítimo e tocante", continuou.

O foco agora é a coletividade. "Um grupo de artistas é mais forte do que um solitário", garante Cristina. "Em breve, elas terão aulas de marketing digital para que possam usar a web para exibir seu trabalho. E vamos em frente. O maior ganho que temos, mais do que descobrir talentos é fazer com que essas mulheres aumentem sua autoestima, autoconfiança e tirem da frente qualquer preconceito", disse.

"Nós vamos expor no Moma (Museu de Arte Moderna, de Nova York), né?", perguntou Magali à professora. "E por quê não?". Pois é! E por que não? Na arte, o céu é o limite..

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