Países com enormes diferenças históricas e climáticas, Brasil e Rússia mantém estreita relação cultural. Se nas bandas de cá admiramos obras de Fiódor Dostoiévski (1821-1881), Alexander Pushkin (1799-1837) e Liev Tolstói (1828-1910); quando se fala em balé nos vem a cabeça o Bolshoi, de Moscou; e no teatro, Anton Tchekhov é um nome obrigatório; por lá nossas novelas são bastante aplaudidas.
Que o diga "Escrava Isaura", trama de 1976, exibida por lá em 1980, em pleno regime soviético. Foi graças a ela que a palavra "fazenda" foi incorporada ao vocabulário nacional russo, segundo informações do Memória Globo. Na época, o conceito de espaço rural que abriga uma família causava estranheza, uma vez que por lá havia muitas fazendas coletivas. E a novela lhes apresentou essa possibilidade de moradia.
Depois foi a vez de "O Clone" (2001). "Eles amam. Perdi as contas de quantas vezes passaram (a novela na TV)", comentou no Twitter Glória Peres, autora do folhetim.
Na literatura também fizemos um gol: Jorge Amado. Aliás, dois, Paulo Coelho também é bastante lido por lá. E na música, nosso axé e até mesmo a lambada já colocou muito russo para bailar. "Incrível ver essas pessoas cantando em português", contou Michel Teló, dono do hit "Ai se eu te pego". Aliás, recentemente, "Tchê Tchê Rere", de Gusttavo Lima, também fez sucesso por lá.
União.
Brasileiros que forem à Russia curtir a Copa do Mundo vão achar a língua russa muito difícil. Mas se falarem devagar com a população local - talvez misturar umas palavras em inglês -, pode (acredite!) ser entendido!
"O russo me parece mais difícil para vocês do que o português é para nós. Algumas palavras me soavam familiares, então era possível entender o contexto", contou a fotógrafa russa Kristina Nikolskaya, que mora há 11 anos no Brasil.
Para ela, brasileiros e russos têm características comuns, principalmente a alegria. "Nós somos um povo muito alegre, tal como o brasileiro. E gostamos muito de festas!", disse ela. No entanto, Kristina explica que as celebrações em ambos países são diferentes.
"Temos o costume de fazer festas sempre em torno da mesa, em que todos sentam juntos e conversam, diferente dos eventos em que já fui aqui e as pessoas se movimentam 'livremente' no ambiente. Festas são sempre mais formais lá", contou ela, que é aluna da academia Runner de São José, e optou por morar no Brasil quando se casou com um brasileiro. "Aliás, aqui toda festa tem bastante gente. Só reunimos tantas pessoas assim em casamentos!", ri.
Na culinária, por lá há o hábito de tomar sopa independente de estar frio ou calor. "Aliás, é um alívio não precisar mais usar aqueles casacos pesados que tínhamos de usar por causa do frio rigoroso da Rússia", diverte-se Kristina.
Aprendizado.
Quando chegou por aqui, a fotógrafa estranhou alguns costumes brasileiros. "Na Rússia, as lojas abrem às 8h e fecham muito tarde. Alguns estabelecimentos são 24h, não paramos nem em feriados. Então, para mim, aqui as coisas fecham cedo. Sábado no início da tarde já está tudo fechado e no domingo nem abre! Quando eu cheguei, me perguntava se as pessoas aqui não gostam de ganhar dinheiro!".
Mas, para Kristina, o principal mistério sobre o Brasil está relacionado ao preço dos produtos básicos, vistos por ela como muito caros.
"Eu vou à Rússia uma vez ao ano, as pessoas que não conhecem o Brasil, acham que é um país pobre. Mas quando eu falo os preços de remédio e alimento, e eles me perguntam porque pagamos tão caro, eu realmente não sei explicar", disse. "O Brasil é cheio de riqueza, de gente trabalhadora, mas realmente, não sei porque as coisas custam tão caras aqui".
soma.
Mas afinal, o que um povo tem a aprender com o outro?
"Os brasileiros, às vezes, falam coisas só por falar. Por exemplo: você conhece uma pessoa e ambas se dão bem. Então ela fala: 'vamos nos ver' ou 'eu te ligo'. E não necessariamente é algo que ela vá cumprir. É uma forma de ser gentil, mas eu estranhei no começo isso, porque ficava esperando mesmo ela me ligar ou marcar algo. Na Rússia, se você falar que vai fazer, você fará. Então acho que brasileiros podiam cumprir essas promessas", avalia.
"Já os russos, ao contrário, precisam de mais gentileza. Às vezes, vou a algum lugar com meu filho, que é pequeno, e preciso de alguma ajuda seja para carregar a mala ou mesmo passar na frente numa fila se ele estiver chorando, e lá é muito difícil alguém ajudar ou ceder o lugar. Aqui eu sei que imediatamente alguém perguntará se preciso de algo. Então, essa é uma lição que deixaria aos russos".
Rússia ou Brasil? "Todo o mundo me pergunta isso. Não sei. Na Copa do Mundo, vai ser difícil escolher se houver disputa dos dois países em campo. Mas na minha vida, eu pego o melhor do meu país e o melhor do país que escolhi viver. É uma soma, nunca uma rivalidade", finaliza..