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Empreendedorismo contra o crime: penitenciária ganha cooperativa de artesanato

Por Paula Maria Prado@paulamariaprado |
| Tempo de leitura: 3 min
Oficina julho Penitênciaria Tremembé
Oficina julho Penitênciaria Tremembé

Ilude-se quem acredita que colocar criminosos dentro de uma penitenciária resolve o problema da violência. Inúmeros fóruns há anos debatem números como os revelados pelo "Mapa do Encarceramento", divulgado pelo Pnud (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento), em 2015, e que mostrou que Estados que tiveram aumento maior de sua população carcerária nos últimos anos não tiveram queda na sua criminalidade.

Mais: organizações criminosas seguem, ainda que dentro desses espaços, comandando atos ilegais, como revelou reportagem especial "O Estado Paralelo do PCC no Vale", publicado na última sexta-feira (31) em OVALE.

Qual então a solução? "Atuar dentro dos presídios para que as pessoas não voltem para o crime é um dos pontos chaves desse debate", afirmou Ricardo Anderáos, vice-presidente de operações do instituto Humanitas360, coordenador de um projeto inovador: uma cooperativa de confecção de produtos artesanais, que começou dentro da Penitenciária Feminina 2, de Tremembé, e que promete ajudar no processo de socialização das detentas.

"É a forma que encontramos de dar oportunidade a elas. Existem, sim, vários projetos que ocorrem dentro das penitenciárias, inclusive, com empresas que operam dentro delas. Mas, se o alto índice de desemprego atinge pessoas que têm a 'ficha limpa', imagine quem já passou pelo sistema carcerário. Partiu daí a nossa ideia então de criar a cooperativa", explicou ele.

A fórmula: tirar pessoas do crime, lhe dando trabalho e renda. "A presa torna-se sócia da cooperativa e, quando ganhar a liberdade, se assim desejar, poderá continuar parte dessa empresa".

EMPREENDEDORISMO.

O projeto contou com uma série de três semanas de oficinas com o designer e tecelão Renato Imbroisi, especializado em criar produtos de artesanato junto de comunidades do Brasil e da África.

Na tarde da última quarta-feira (29), uma visita de Lourival Gomes, secretário da Administração Penitenciária, e de Ana Paula Fava, chefe da Assessoria Especial para Assuntos Internacionais do Palácio dos Bandeirantes, estiveram na Feminina 2.

A visita marcou o encerramento dos workshops, que tiveram como objetivo aprimorar as habilidades das detentas e desenvolver a linha de produtos que serão futuramente comercializados pela cooperativa.

Os próximos passos do projeto são o lançamento da marca e a viabilização dos canais de venda, trabalho capitaneado pelo instituto.

"Nós não ganhamos nada em termos financeiros, pelo contrário: investimos uma soma grande de recursos. Entre a contratação de consultores, compra de material e cuidados legais foram gastos R$ 1 milhão. Mas, todo o lucro que vier com a receita da venda dos produtos, ficará com os cooperados", disse Anderáos.

Segundo o coordenador, é como se o instituto fosse um misto de incubadora e investidor anjo, e cada cooperativa (há outros projetos em andamento) fosse uma startup.

"Conversamos com as detentas sobre conceitos empresariais que elas não conheciam, como pró-labore em vez de salário, fluxo de caixa, fundo... E tudo tem sido feito em parceria com o Conselho da Comunidade de Taubaté, composto por voluntários que desejam ajudar na ressocialização dos detentos", continuou.

Por ora são, ao todo, 30 participantes. Conforme for aumentando o espaço físico destinado ao projeto dentro do presídio, mais mulheres poderão ingressar na cooperativa.

E o primeiro lote de produtos tem destino definido: foi comissionado pelo Palácio dos Bandeirantes para ser distribuído às autoridades visitantes e em viagens oficiais.

"No início, nas reuniões, havia cerca de 70 detentas. E, quando explicamos que não haveria salário fixo, muitas desistiram. Chegamos a ter apenas oito interessadas. No entanto, estas acreditaram no projeto e começaram elas mesmas a convencerem as colegas", contou o gestor.

As aulas foram necessárias, uma vez que poucas sabiam costurar. "Há pouco tempo, elas já receberam seu primeiro pró-labore, cerca de R$ 500 cada uma. Foi emocionante. Muitas delas estão presas há anos, sem contato com as suas famílias, sem qualquer tipo de trabalho. Essa foi uma primeira vitória muito comemorada por todos nós"..

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