"Imagina o que essa árvore já não viu!", cravou o funcionário da Urbam. Olhei para cima. Dona Figueira continuava imponente com seus 20m de altura e 35m de diâmetro de copa. Ela não é mais tão formosa... Claro, 150 anos tem seu preço. "Pena que está oca e com os galhos podres. Se um deles cair, Deus me livre, não gosto nem de pensar...", continuou.
Oca? Quis chegar perto da árvore, mas desisti por causa do matos em torno dela. Quando estava indo embora ouvi um sussurro: "Ei, menina! Volte aqui". Parei. "Está tudo bem, Paula?", perguntou Rogério Marques, fotógrafo. "Paulinha... A menina dos livros...", ouvi novamente. Ok, ou eu estava ficando louca ou tinha uma árvore falando comigo!
Virei e encarei aquele tronco de quase 50 cm de diâmetro. Era ela. Só podia ser. Quem mais sabia do meu costume de ler sentada sob a sua sombra? "Venha, querida. Não tenha medo". "Oi, árvore...". "Dona Figueira, ao seu dispor". E assim começa a nossa história. Ou melhor, a entrevista mais maluca que já fiz na vida.
O QUE VI DA VIDA.
"Quando cheguei nas bandas de cá, aqui era conhecido como o jardim do largo da igreja de Nsa. Sra. do Rosário. Só em 1917 é que se tornou pça. Cônego Lima. Ah, minha juventude... Uma alegria só. Lembro dos dias de festa, principalmente Sete de Setembro e Dia da Independência, quando o povo me enfeitava com luzes coloridas", contou Dona Figueira.
"Mas nem tudo eram flores. Em 1935, pela primeira vez ameaçaram me cortar. Fiquei apavorada! Na verdade, tiraram algumas das minhas colegas para colocar uns bancos na praça, mas sem encosto. A ideia era afastar os doentes, veja só! A cidade vivia sua fase sanatorial. O pessoal vivia reclamando que nossas raízes estavam invadindo as casas da região. Foram tempos sombrios".
"Verdade que tinha um rapaz que trazia a cama para a praça e dormia aqui para ficar vigiando?", interrompi. "Ô! Era o vereador Pedro David, nosso protetor", ri a árvore. "E quando construíram um negócio aqui no meio da praça que ninguém sabia direito o que era? O povo chamada de mausoléu! Era uma coisa grotesca, de cimento e cal", lembrou. Foi minha vez de rir. "Quando foi isso?". "Por volta de 1955".
"Aliás, conta a história que São José passou a ser modernizada a partir de 1950", comentei. "Que menina estudiosa! Foi isso mesmo. Havia uma ideia de progresso na época, e coincidiu com a vinda de diversas indústrias para cá. As ruas foram alargadas, fizeram vias para ligar os bairros e plantaram mais árvores... Bons tempos. Hoje as coisas estão tão diferentes, né?". "Imagino que sim". "Mas gosto de algumas modernidades. Principalmente desse tal de celular. Às vezes, o pessoal que trabalha no Centro senta sob a minha sombra na hora do almoço. Eu fico só de olho. É cada conversa!", diverte-se.
PRESENTE.
"Dona Figueira, você sabe que a Prefeitura..." "Eu sei... Eu vou ser cortada". Suspirei. "Tenho andado doente. Recebo fungicidas e inseticidas desde 2005. Mas as pessoas estão com medo... Ano passado derrubei um ramo. Não tenho mais a força de antes", disse sincera.
"Mas as pessoas não querem. A Prefeitura e o Instituto Florestal determinaram o corte. O Comphac já aprovou. Mas ambientalistas acreditam na sua recuperação e o Ministério Público pediu adiamento da decisão", argumentei. "Sim, estou nas mãos deles. Espero, claro, ficar. Mas se for preciso, estou pronta para partir. Afinal, 'do pó ao pó'", finalizou a conversa.
"Paula, vai ficar muito tempo aí ainda?", perguntou Rogério. "Não, não...", respondi. "Dona Figueira...". "Vá, minha filha. E volte sempre que quiser. Estarei aqui".
Saí da praça e no caminho para a Redação fiquei pensando em como contar ao editor-chefe que me atrasei porque estava conversando com uma... Árvore. Mas acredite! Eu juro!.