"Acender a luz do próximo não apaga a sua". Ainda que não tenha sido dita por Andressa Carvalho, a frase resume seu trabalho no Centro de Ressocialização Feminino de São José dos Campos. A artista plástica, responsável pela empresa Conceito Eco, é, desde 2016, coordenadora do projeto "Mãos que Libertam".
Nele, cerca de 15 reeducandas confeccionam produtos a partir de resíduos descartáveis. São bolsas, brincos, blocos de anotação, chaveiros e carteiras feitas com restos de papel, tecidos, revistas e banners.
No centro da ação, mais do que qualificar as presas, o objetivo é resgatar a autoestima de cada uma. "A vida é feita de escolhas e, nem sempre, escolhemos o correto. No entanto, algumas decisões têm como consequência resultados que sequer imaginamos. E, se unirmos as histórias de vida de todas as mulheres que estão aqui, veremos que há uma necessidade por trás daquela decisão. A nossa ideia é preencher essa necessidade", afirmou Andressa.
Ou seja, que cada mulher seja protagonista de sua própria história. "Quando ela descobre que pode cuidar da sua família, ter um trabalho e não depender de ninguém, ela percebe que não precisa voltar ao crime", continuou.
Segundo Elaine da Silva Marcelino, assistente social da SAP (Secretaria da Administração Penitenciária), a aposta da artista plástica é fato. "Essas parcerias são interessantes porque além de desmistificar o sistema prisional e mostrar como realmente é a rotina de uma presa; são importantes para a socialização e contribuem com o processo de reintegração social", disse.
TRANSFORMAÇÃO.
Ainda que não haja dados estatísticos sobre os benefícios sociais de oficinas como essa, é possível verificar seu sucesso no âmbito qualitativo, com relatos de detentos que contam o quanto as atividades contribuíram para a sua vida.
É o caso de Adriana Rodrigues Laurette, 28 anos, que jamais imaginou que pudesse realizar trabalhos manuais. "Entrei na oficina porque eu estudo pela manhã e estava com algumas horas vagas na parte da tarde. Então para preenchê-las, entrei no projeto. E me surpreendi", contou a reeducanda, que participa desde novembro. "Encontrei carinho aqui, aconchego, incentivo. Isso mexeu com minha vida. Quero continuar parte do projeto quando eu sair daqui".
O mesmo ocorreu com Nilma Pereira Gomes Bastos, 41 anos. "Para mim é uma honra pensar que eu estou fazendo algo que tem interessado as pessoas lá fora. Vejo que sou capaz", disse. "Mostrei para a minha filha uma bolsa que fiz no curso e ela ficou encantada. Fiquei feliz de ver aquilo".
UM PASSO DE CADA VEZ.
Segundo Andressa, "a ideia do projeto não é salvar o mundo". "Não vou resolver o problema da vida de todas. Mas desejo que essas mulheres se sintam capazes e não reincidam no crime. Por isso da necessidade de uma sede do projeto fora dos muros da penitenciária, onde elas poderão continuar trabalhando", ressaltou a artista, responsável pelo desenvolvimento dos produtos.
Todas as peças estão à venda e são produzidas conforme a demanda. Os materiais reciclados são fornecido por empresas, principalmente materiais gráficos.
A cada três dias de trabalho, as reeducandas têm a remissão de um dia da pena. A jornada é composta por quatro horas diárias. Todas as participantes são remuneradas.
Para saber mais, acesse: www.facebook.com/maosquelibertam..