Brasil

Razões certas, escolha errada

Por Pedro DallariAdvogado e professor Titular do Instituto de Relações Internacionais da USP |
| Tempo de leitura: 2 min
Opção. O candidato Fernando Haddad, do PT
Opção. O candidato Fernando Haddad, do PT

Bolsonaro é um candidato de extrema direita. Defende a ditadura militar que se impôs no Brasil em 1964. Defende a tortura. E já declarou ser a favor do extermínio dos que não pensam como ele. Em que pese essa postura completamente antidemocrática, o candidato conta com expressivo número de apoiadores, que lhe conduziram ao segundo turno da eleição presidencial. Uma parte desses apoiadores comunga com essas posições e faz questão de demonstrar essa identidade. Estão aí os atos de violência explícita, inclusive homicídio. A retórica extremamente agressiva que envenena as redes sociais. A adoção da suástica nazista.

A maior parte dos eleitores de Bolsonaro, todavia, não compartilha essas atitudes e nem as posições de seu candidato. Como demonstra pesquisa recente do Datafolha, a grande maioria da população brasileira (69%) defende a democracia e rejeita a ditadura. Como explicar essa contradição? O que leva um contingente expressivo de adeptos do regime democrático a apoiar um candidato que representa a própria negação da democracia?

O motivo evidente é a insatisfação generalizada diante da grave crise que vive o Brasil e a avaliação de que as forças políticas tradicionais são responsáveis por essa situação. Nesse contexto, a candidatura de Bolsonaro, desvinculada dos grandes partidos e prometendo conduzir com vigor a instauração de uma nova ordem, passou a ser vista como alternativa válida. Há razões indiscutíveis para o sentimento de descrença da população. A crise econômica, que produziu 13 milhões de desempregados. A precariedade dos serviços públicos, em especial os de segurança, tornando dramática a realidade de muitos lugares. A corrupção sistêmica. E é mais do que óbvia a responsabilidade das principais forças políticas do País por esse estado de coisas, com os casos de corrupção se distribuindo indistintamente pelos diversos partidos.

Se essas razões explicam o desejo por mudanças, a escolha de Bolsonaro para realiza-las não se sustenta. A indignação popular da atualidade, cuja origem pode ser identificada nas manifestações de 2013, é fruto da conscientização sobre os direitos de cidadania que resultou justamente do exercício da democracia nas três décadas que se seguiram ao final da ditadura militar. É injustificável, assim, que a afirmação da cidadania leve à escolha de candidato que nega a democracia. No poder, Bolsonaro irá atuar com força para reverter as conquistas democráticas. Apesar de seu partido ter grande responsabilidade pela crise e, ao não reconhecer essa parcela de culpa, gerar forte desconfiança na sociedade, o voto em Fernando Haddad é aquele que poderá contemplar de forma efetiva os anseios por mudanças. Até mesmo pelo compromisso com a preservação da democracia, condição necessária para que as mudanças realmente ocorram..

Comentários

Comentários