"Um dia conheci um menino que tinha um sonho no coração, no rosto as marcas da dor na voz um canto de amor", diz a letra da canção "Esse Menino Sou Eu", que nomeia o segundo disco solo de Xande de Pilares, depois dele ter sido vocalista por 20 anos do grupo Revelação.
O trabalho, dividido em duas partes, traz nesse primeiro volume (17 músicas) o retrato de Alexandre, menino sambista que nasceu no Morro da Chacrinha, zona norte do Rio de Janeiro.
Filho de dona Maura e seu Custódio, o garoto quase não saia de casa "para não virar marginal!", falava sua mãe. Lhe restava então passar as vazias tardes na companhia do violão, que se tornou, aos poucos, seu passatempo preferido.
"O disco é praticamente uma biografia. De um menino que nasceu no morro, sem perspectiva e conquistou o respeito por meio da música", contou o cantor em entrevista a OVALE. Entre suas músicas favoritas: "Mãe" e "Tem que provar que merece".
"Se esse volume conta a minha história de menino, o segundo volume trará histórias de como me tornei Xande de Pilares", disse.
RESPEITO.
Como uma resistência diante de tantos ritmos em ascensão - tais como funk e sertanejo - Xande continua apostando no samba.
"Em quatro décadas de vida vi muitos movimentos se destacarem e outros perderem espaço. Tivemos desde a tropicália, passando por bossa nova, jovem guarda, samba, sertanejo, axé... E agora é a vez do funk e desse novo sertanejo. E é preciso respeitar o momento de cada um", afirmou. "Eu me sinto parte de uma resistência a medida em que continuo no meu cantinho, elaborando meus planos e seguindo com meu som".
POSICIONAMENTOS.
Parte de um grupo de artistas que luta pela valorização de músicos e compositores no movimento "Procure Saber", Pilares não tem papas na língua quando o assunto é venda de música no formato digital.
"Não concordo com isso porque esse tipo de consumo faz com que o fã perca informações sobre o disco e os artistas que participaram dele. E tenho visto músicos que dedicaram muitos anos há música e hoje estão no desespero porque ser artista não é fácil. E o digital não remunera como deveria", afirmou.
Segundo ele, se antes era preciso lutar para que a polícia não prendesse sambista, hoje é preciso brigar para que compositores não morram de fome. "Compositor hoje em dia só ganha dinheiro se a música estourar. Mas e se isso não acontecer? Atualmente é possível ver músicos morando na rua. E eu já ajudei alguns porque eu vim de um lugar em que as pessoas se ajudam. Fazem 'vaquinha' para comprar um gás, dividem a comida. Ninguém é obrigado a concordar com isso, mas é preciso que todos saibam que ninguém leva nada disso para o caixão".
FUTURO.
Pilares pretende ainda para este ano turnês nos Estados Unidos e na Europa. "Havia recebido convites no ano passado, mas eu não tinha nada para mostrar. Vou chegar lá cantando Revelação? O pessoal ia ficar com cara de 'ué, não entendi'. Mas agora eu tenho o meu trabalho e ele está muito bacana"..