O que é sagrado para você? Para Fátima Santos, de São José, a resposta é fácil: sua família e os anjos de barro que perpetuaram nela a tradição iniciada por sua mãe, Lili Figureira, de criar figuras de barro. Já para a ceramista Claudia Canova, de Caraguatatuba, o seu sagrado é a natureza e todos os elementos que a compõem.
Ambas artistas plásticas fazem parte da exposição "Retábulos, o sagrado de cada um", que será aberta na próxima quinta-feira (19), no parque Vicentina Aranha. Nela, 14 figureiros e ceramistas expõem em retábulos a representação daquilo que lhes inspiram diariamente.
Coordenado por Carlo Cury, ceramista membro do grupo Ubuntu, criado no Litoral Norte, o projeto foi iniciado há um ano. "Na ocasião em que fiz uma exposição em São José, tive contato com as figureiras. Fiquei muito tocado com o trabalho delas. Até que, em uma viagem que fiz ao Peru, vi os retábulos (altares portateis), famosos por lá, e fiquei com aquilo no coração. Voltei a São José, marquei um encontro dos artistas do litoral com o coletivo Santo de Casa e lancei a ideia", afirmou Cury, cujo sagrado relaciona-se ao seu ofício.
"Quando estou trabalhando, é a hora que fico livre de tudo. Meu sagrado é o meu fazer", explicou. Segundo o ceramista, a produção das peças contou com orientações do crítico de arte Oscar D'Ambrosio, que conversou individualmente com cada artista. É ele ainda que assina a curadoria.
desafios em barro.
Dentro de cada retábulo, não necessariamente precisa ter uma figura religiosa. Assim, cada artista teve a liberdade de construir seu relicário, apresentando ao visitante a sua percepção de realidade.
"Foi muito difícil traduzir aquilo que é invisível a muitas pessoas. Fiz árvores, representei florestas, e dei 'zoom' àquilo que costuma passar despercebido por todos", disse Claudia, que usou os bordados da sua tia-avó para imprimir texturas nos pequenos animais que criou em barro.
"Acho precioso esse tempo que uma pessoa passa bordando. É sagrada essa dedicação, a entrega de cada um", continuou.
Segundo Fátima, foi um verdadeiro desafio para todas a criação do retábulo. "Conversamos e pesquisamos muito, fizemos várias peças até chegar a que queríamos. É muito importante não só criar uma figura, mas contextualizá-la. Cada prateleira têm de contar uma história. Foi um desafio muito interessante", afirmou.
mãos que criam.
Destaque ainda para o retábulo que homenageia figureiros já falecidos, como Lili, Mudinha e Dona Eugênia, com suas peças originais.
Estão na mostra obras de Aurora do Carmo e Silva, Fátima Aparecida dos Santos, Luciana Melo, Mirna Tominaga, Rosa Ester Quadros, Thais Mancuso, Rita Engi, Denise Magon, Zadoná, Claudia Canova, Carlo Cury, Carlos Gama, Stela Vaz e Zu Chiata.
Serviço.
A exposição estará no Pavilhão São José até o dia 31 de agosto, e ficará aberta das 9h às 21h. O parque fica na r.Prudente M. Moraes, 302, Vila Adyana. A entrada é gratuita..