Desde criança, Monteiro Lobato sonhava em ser pintor. Cogitou matricular-se na escola de Belas Artes, mas seu avô materno, o Visconde de Tremembé, interveio: para tomar conta da fazenda, ele havia de ser doutor!
E foi assim que o jovem de Taubaté escolheu o Direito para formação. Seguiu investindo nas artes plásticas, e até poderia ter virado um famoso pintor se não fosse o engano de ter comprado uma caixa de aquarelas no lugar de tinta a óleo.
"A vergonha daquela rata matou em mim todas as veleidades pictóricas. Como pretende ser pintor um imbecil que nem distingue aquarela de óleo?", escreveu ele, relembrando-se do fato. Tornou-se reconhecido escritor, mas sua paixão pelas tintas nunca o abandonou.
Amigo íntimo de Clodomiro Amazonas e Georgina de Albuquerque, artistas plásticos naturais de Taubaté, Lobato seguiu pintando na intimidade.
E é para apresentar ao público os trabalhos do escritor junto de seus conterrâneos que ocorre, no Museu de Arte Sacra de São Paulo, a mostra "Artistas de Taubaté".
A exposição é composta por 80 pinturas em técnicas variadas - aquarela e óleo sobre tela, entre outras - e esculturas, as quais são pouco conhecidas e representam a produção mais significativa desta leva de artistas nascidos em Taubaté entre 1879 e 1885. "Gênios, grandes artistas, surgem de tempos em tempos. De uma só vez, vários numa só década, no entanto, praticamente nunca surgiram. Em Taubaté, entretanto, aconteceu", comentou em nota José Oswaldo de Paula Santos, presidente do Conselho do MAS-SP.
Além do trio citado, soma à lista de artistas, Francisco Leopoldo e Silva. A curadoria da mostra é de Ruth Sprung Tarasantchi, diretora de arte da Sociarte, Associação dos Amigos da Arte de São Paulo.
"Taubaté do séc.19 era uma pequena cidade do interior. Georgine foi estudar no Rio de Janeiro, seguiu para a França e foi uma das primeiras pintoras sob influência do impressionismo. Já Clodomiro foi embora para São Paulo e tornou-se reconhecido por suas paisagens", contou ela. "Francisco era escultor e foi estudar na Itália. Teve o mesmo professor de Victor Brecheret (1984-1955). É dele, por exemplo, a obra 'Nostalgia', em frente ao Jockey Clube, de São Paulo. Por fim, Lobato, que foi uma redescoberta impressionante, uma vez que ele nunca foi reconhecido como pintor", continuou Ruth.
Segundo ela, enquanto estava fazendo uma pesquisa no laboratório Fontoura, em São Paulo, deparou-se com obras do autor penduradas na parede. "Fiquei encantada! Anos depois, entrei em contato com a família e então conseguimos alguns trabalhos para essa exposição", afirmou a curadora.
"No fundo não sou literato, sou pintor. Nasci pintor, mas como nunca peguei nos pincéis a sério [...] arranjei este derivativo de literatura, e nada mais tenho feito senão pintar com palavras. Minha impressão dominante é puramente visual", declarou ele certa vez.
Serviço.
O Museu de Arte Sacra fica na Av. Tiradentes, 676, Luz. Até dia 16/12. Ingresso: R$ 6..