Não é novidade que o cenário político do Brasil é caoticamente inspirador para humoristas do país inteiro. Por isso mesmo merece destaque a seleção de referências feitas pela turma do Porta dos Fundos em "Teocracia em vertigem", seu novo especial de Natal, já disponível no YouTube.
Para satirizar a trajetória de Jesus Cristo entre sua crucificação e a ressurreição, o grupo optou por um formato de documentário fake, utilizando como gatilho "Democracia em vertigem", filme de Petra Costa indicado ao Oscar.
O episódio exibe 25 depoimentos de personagens bíblicos que dão seus pitacos sobre o possível paradeiro de Jesus, interpretado por Fabio Porchat. Em 50 minutos, o especial apresenta uma sequência de referências a passagens bem específicas (e, muitas vezes, pouco cristãs) de nossa recente história política em meio a uma investigação minuciosa sobre os vestígios de Jesus até seu desaparecimento.
Abaixo, selecionamos alguns destes momentos e como eles são representados em "Teocracia em vertigem".
Votação do impeachment de DilmaO episódio começa já dialogando explicitamente com a sessão que, em 2016, determinou o afastamento da ex-presidente. No caso de "Teocracia", a votação é adaptada para uma escolha entre Jesus Cristo e Barrabás.
Estão lá os discursos em nome da "família" e dos "bons costumes". E também o fatídico voto do então presidente da Câmara, Eduardo Cunha: "Que Deus tenha misericórdia dessa nação". Só que, agora, dito pelo personagem de João Vicente Castro.
Guardiões do CrivellaA denúncia envolvendo servidores municipais do Rio pagos para intimidar a população e a imprensa em frente a hospitais da rede pública é transportada para uma cena envolvendo o depoimento de Maria Madalena (Thati Lopes). Ela é interrompida por alguns capangas que impedem que ela faça suas considerações sobre a figura de Jesus, que "vem fazendo um bom trabalho".
Carta de Temer a DilmaHá cinco anos o Brasil tomava conhecimento da carta enviada pelo então vice-presidente Michel Temer a Dilma Rousseff, em que ele reclamava de ser relegado ao posto de "vice decorativo". No especial, Temer se transforma em Judas, o apóstolo que traiu Jesus. Na cena, o personagem interpretado por Daniel Furlan ("Choque de cultura"), afirma que acreditava em Jesus até o momento em que decidiu escrever uma carta a ele, dizendo que não aceitava mais ser tratado como um "apóstolo decorativo".
Queiroz e a rachadinhaCabe a Pedro, outro apóstolo, vivido por Leandro Ramos ("Choque de cultura"), acusar Judas de ter sido comprado para atacar Jesus. Pedro afirma que o ex-apóstolo fazia parte de um esquema de "rachadinha", referindo-se diretamente à denúncia envolvendo Fabricio Queiroz, ex-assessor do senador Flávio Bolsonaro e amigo da família presidencial. "Por que depositaram 89 mil moedas de prata na conta da ex-mulher do Judas?", questiona Pedro.
Em sua defesa, Judas argumenta que as acusações são notícias falsas, ligadas a um gabinete. "Essa indústria do boato é perigosíssima, tem um gabinete disseminando isso. Lembra de Caim? Todo mundo preferia Abel e deu no que deu... uma baixaria!", diz o ex-apóstolo.
Power Point da Lava JatoEm 2016, o então procurador da Lava Jato, Deltan Dallagnol, apresentou um documento em Power Point com as acusações que embasavam a denúncia do ex-presidente Lula pela operação. O aspecto, digamos, rudimentar da apresentação acabou tornando a coletiva em meme. No episódio do Porta dos Fundos, o evento é lembrado em uma cena protagonizada por Antonio Tabet na pele do centurião Peçanhus. Já no centro das denúncias está Jesus. "Prova é um conjunto de convicções", diz o personagem.
Condução coercitivaTermo que se tornou popular também após a denúncia do ex-presidente Lula pela Operação Lava Jato, ela é adaptada pelo personagem Pedro (Leandro Ramos). Ele questiona: "Precisava dessa condução de cruz coercitiva?".
O polêmico encontro do presidente Jair Bolsonaro com seus ministros, em abril, também é lembrado. A reunião original rendeu bastante: o então chefe da pasta da Educação, Abraham Weintraub, chamou os ministros do STF de "vagabundos"; à frente do ministério do Meio Ambiente, Ricardo Salles pediu para que se "passasse a boiada"; já o ex-ministro da Justiça, Sérgio Moro, marcava ali um dos seus últimos momentos como membro do governo.
Em "Teocracia", cabe a Rafal Infante, na pele do sacerdote Caifás, satirizar Jair Bolsonaro, especialmente o vocabulário repleto de palavrões evocado pelo presidente durante a reunião.
"Fala com a Márcia"Em 2018, a servidora municipal do Rio Márcia Nunes virou manchete ao ser pivô de uma denúncia envolvendo o prefeito do Rio, Marcelo Crivella. Ela ganhou notoriedade no episódio que ficou conhecido como "Fala com a Márcia", quando Crivella indicou o nome dela a líderes religiosos como uma forma de agilizar o atendimento na rede municipal de saúde.
No episódio do Porta dos Fundos, Márcia é lembrada em uma cena interpretada por Yuri Marçal, que dá vida a um ambulante local. Ele reclama da confusão gerada após a chegada de Jesus na passagem bíblica dos "vendilhões do Templo". O personagem de Marçal se diz indignado por ter perdido seu "estoque de pombos para sacrifício" e relata ter recebido de Jesus o conselho para "procurar a Márcia" e reaver seu prejuízo.