Em março de 2020, o Brasil tinha a faca e o queijo da mão para fazer o certo. A afirmação é da médica Stella Zöllner, coordenadora pedagógica do curso de Medicina da Unitau (Universidade de Taubaté) e especialista em saúde pública.
A constatação, feita a partir da evolução da Covid-19 pelo mundo, ganha ares de lamentação, com a evidente conclusão de que o país não aproveitou a chance que teve.
Os primeiros casos de Covid-19 foram formalmente reportados em dezembro de 2019, na China. A doença se alastrou pela Europa no mês seguinte, mas chegou ao Brasil apenas em fevereiro, com a primeira morte por aqui somente em março.
"Quando chegou por aqui, já existiam exemplos de outros países que haviam feito o certo", afirma Stella.
Mas o Brasil não seguiu os exemplos que haviam dado certo mundo afora e tampouco seguiu recomendações das autoridades sanitárias, como a OMS (Organização Mundial da Saúde). E, em vez de apostar na ciência, o governo Jair Bolsonaro (sem partido) passou a propagandear medicamentos sem eficácia comprovada no tratamento da doença. Nesse contexto, a vacina, que deveria ser vista como a principal aposta para combater o vírus no país, foi negligenciada -- o que fica claro em diversos episódios. Em julho de 2020, por exemplo, o governo Bolsonaro simplesmente faltou a um encontro entre chanceleres da América Latina e da China, no qual a pauta era o acesso da região às vacinas que seriam produzidas no país asiático e o anúncio de uma linha de crédito de US$ 1 bilhão para permitir que as nações latino-americanas pudessem adquirir os produtos.
Em agosto, o Brasil ignorou uma proposta da farmacêutica Pfizer para possível aquisição de 70 milhões de doses de sua vacina, com entrega dos primeiros lotes a partir de dezembro de 2020. Em setembro, o governo Bolsonaro optou pela menor cobertura possível na aliança mundial de vacinas, a Covax Facility, que é articulada pela OMS. Embora houvesse possibilidade de solicitar doses para atender até 50% da população brasileira, o país escolheu o menor percentual possível, de 10%, o equivalente a uma opção de compra de 42 milhões de doses.
Ações do governo Bolsonaro também prejudicaram a vacinação em outros países. Ainda no ano passado, o Brasil foi a única nação em desenvolvimento a declarar abertamente que era contra a proposta feita pela Índia para que patentes sobre vacinas fossem abolidas e para que a produção pudesse ocorrer em laboratórios distribuídos pelo mundo. O Brasil, que nos últimos anos era uma liderança internacional que buscava garantir o acesso a remédios aos países mais pobres, optou por votar de acordo com o interesse das nações ricas, em especial os Estados Unidos, até então presidido por Donald Trump..