SÃO PAULO - Morreu nesta sexta-feira, aos 86 anos, Raul Fernando do Amaral Street, o Doca Street. Ele ficou nacionalmente conhecido após ter assassinado a socialite Ângela Diniz com quatro tiros no rosto, em dezembro de 1976.
A informação da morte de Doca Street foi confirmada ao jornal O Globo por familiares de Street. Segundo uma de suas netas, que preferiu não se identificar, ele não estava doente e sofreu uma parada cardíaca.
O assassinato de Ângela Diniz foi um marco no movimento feminista do Brasil, que começava a tomar corpo. As mulheres ficaram inconformadas com o tratamento dado à vítima, que era uma rica e independente e teve sua vida devassada pela defesa de Doca Street, que usou a tese da "legítima defesa da honra" para justificar o crime.
Fosse hoje, o crime seria o de feminicídio.
Ângela e Doca Street se conheceram num jantar em São Paulo e estavam juntos há apenas quatro meses. Ele largou mulher e filhos para viver com a socialite na casa dela, em Búzios, e era Ângela quem bancava as despesas. No dia 30 de janeiro de 1976, os dois haviam passado o dia na praia. Controlador, ele passou a reprimir o comportamento dela.
O crime ocorreu durante uma discussão, na qual Ângela tentou por um fim ao relacionamento. Ainda hoje, boa parte dos assassinatos de mulheres tem como criminoso o companheiro ou ex-companheiro, e o fim de relacionamentos costuma ser um dos motivos mais comuns.
O movimento em defesa da memória de Ângela e pela punição de Doca Street cunhou o slogan "quem ama não mata", usado até hoje. O poeta Carlos Drummond de Andrade teria escrito em defesa dela: "Aquela moça continua sendo assassinada todos os dias e de diferentes maneiras".
Doca Street deixou a arma ao lado do corpo e fugiu para Minas Gerais. No primeiro julgamento, em 1979, foi condenado a dois anos de reclusão, mas não foi preso porque teve direito a suspensão condicional da pena. Com a repercussão do caso, foi levado a um novo julgamento. Em 1981, foi condenado a 15 anos de prisão.
Doca Street cumpriu a pena. No mês passado, ele havia completado 86 anos. Ele deixa três filhos, dez netos e um bisneto.