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Pacientes com HIV fecham os olhos para diagnóstico

Por Thais Perez |
| Tempo de leitura: 4 min
AIDS
AIDS

A infecção pelo vírus HIV deixou de ser uma sentença de morte há 20 anos. Atualmente, a medicina é capaz de garantir longevidade e qualidade de vida a aqueles que contraíram o vírus. Esse fato causou um relaxamento em parte da população, quase que aniquilando o medo de ser infectado.

Causando menos mortes, o vírus HIV tornou-se um inimigo silencioso de uma geração que acredita ser invencível.Apesar de os índices de mortalidade relacionados a infecção do vírus terem sofrido redução, um relatório de 2019 do Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/AIDS (UNAIDS) aponta que o número de casos da doença aumentou 21% no Brasil desde 2010, indo na contramão do que acontece no resto do mundo.Atualmente, cerca de 900 mil pessoas vivem com HIV no Brasil.

Acredita-se que 15% desses indivíduos não sabem do seu diagnóstico, ou seja, 120 mil infectados que sequer fizeram o teste de HIV. De acordo com a infectologista Fernanda Gross, um dos motivos para esse dado é que o vírus muitas vezes não apresenta sintomas. Contudo, as barreiras para o diagnóstico do HIV ainda são cercadas de dilemas morais.

“Infelizmente, ainda existe um estigma muito grande sobre a doença, o que cria uma barreira a mais para as pessoas fazerem o teste. Há pessoas que têm medo de saber o diagnóstico, ou então que preferem não fazer”, explica a doutora.As barreiras sociais que cercam a AIDS fazem com que as suas consequências cheguem ao limite da doença. Em 2017, o companheiro de R. T. apresentou um quadro de dores de cabeça. Uma queixa da qual a maioria das pessoas apresenta, evoluiu para vômitos constantes. Ele apresentou uma piora drástica, levando ao diagnóstico de uma meningite fúngica, doença comum naqueles que possuem AIDS.

“Nem eu ou a família dele sabíamos que ele tinha AIDS. A carga viral estava altíssima, o que quer dizer que ele havia sido infectado na adolescência”, conta R. Vivendo o luto de perder seu companheiro, ele ainda teve que enfrentar seu novo diagnóstico -- também estava infectado com o vírus HIV. “A mãe do M. achou que eu havia passado o vírus para ele. Foi muito difícil. Descobrimos juntos que M. já sabia que estava com HIV e havia feito um teste há alguns anos, mas nunca tinha contado seu diagnóstico para ninguém”.

De acordo com a UNAIDS, o Índice de Estigma e Discriminação em relação às pessoas que vivem com HIV ou vivem com AIDS destaca números alarmantes: cerca de 20% dessas pessoas já perderam uma fonte de renda, emprego, ou foram rejeitadas em oferta de trabalho em função de seu diagnóstico positivo. Outro dado que alerta é que 13% das pessoas que vivem com HIV ou vivem com AIDS tiveram seu trabalho alterado ou uma promoção já lhe foi negada em função do seu diagnóstico. “HIV precisa ser colocado em pauta em todos os espaços e é muito importante que as organizações se unam para combater estigmas, discriminação, além de incentivar a prevenção”, afirma Claudia Velasquez, Diretora e Representante do UNAIDS no Brasil.

TESTAGEM.

Além dos testes rápidos para HIV serem vendidos em farmácias, estes e outros testes também são realizados gratuitamente pelo SUS, nas unidades da rede pública e nos CTA (Centros de Testagem e Aconselhamento) a partir da coleta de sangue ou por fluido oral. No Brasil, esses exames e testes detectam os anticorpos contra o HIV em cerca de 30 minutos. Além disso, é garantida a total confidencialidade das informações dos resultados dos exames nas redes pública e privada.

“Qualquer pessoa que tenha partido ético e que seja sexualmente ativo deve fazer o exame, independente do perfil. Também temos alguns grupos especiais que devem ser testados com mais frequência, como as mulheres grávidas e pessoas que foram diagnosticadas com tuberculose”, explica a doutora Gross.

De acordo com ela, quase metade das pessoas diagnosticadas com HIV descobrem a infecção tardiamente. “Além de controlar o vírus e evitar que ele se transforme em AIDS, também é uma forma de impedir a transmissão”, completa.

Além da relação sexual sem proteção, há outras formas de exposição ao HIV, como uso de seringas compartilhadas ou outros materiais perfurocortantes, de contato com sangue contaminado, de mãe para filho durante a gestação, parto e amamentação.Atualmente, o tratamento contra o HIV está disponível no SUS. Além dos retrovirais, há também o PrEP (Profilaxia Pré-Exposição) que consiste em uma nova abordagem de prevenção à infecção com o uso de um comprimido diário que impede que o vírus infecte o organismo.“Na época, eu fiquei muito abalado. Depois que toda a poeira baixou, fiquei paranóico. Não sabia como ia ser viver estando infectado. Pensei que fosse morrer a qualquer momento. Agora, isso para mim já é página virada”, afirma R. T.

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