Principal liderança política do partido no país atualmente e cotado para ser o candidato tucano à Presidência da República em 2022, o governador João Doria não apareceu até agora nas campanhas do PSDB às Prefeituras das duas maiores cidades da região – São José dos Campos e Taubaté.
Próximos do governador pelo menos até o fim de 2019, Felicio Ramuth, que busca a reeleição em São José, e Ortiz Junior, que tenta emplacar Eduardo Cursino como seu sucessor, começaram a se distanciar de Doria logo no início da pandemia do coronavírus, quando se acirrou a polarização entre o comandante do Palácio dos Bandeirantes e o presidente Jair Bolsonaro (sem partido), antecipando a disputa que provavelmente terão daqui a dois anos.
A lógica é simples: ao terem a imagem associada a Doria, Felicio e Cursino poderiam perder votos entre eleitores bolsonaristas, que pertencem ao mesmo espectro político do eleitorado tradicional do PSDB na região (conservador e de direita ou centro-direita).
O resultado de duas pesquisas feitas pelo Ibope em outubro, sob encomenda da TV Vanguarda, consolidou ainda mais esse entendimento. Nas duas cidades, Bolsonaro tem avaliação melhor do que Doria.
Em São José, por exemplo, o presidente é considerado ótimo ou bom por 41% do eleitorado. Já o governador atingiu 29%. O percentual de ruim ou péssimo foi equivalente: 31% para Bolsonaro e 30% para Doria.
Em Taubaté, situação ainda mais favorável ao presidente: Bolsonaro é ótimo ou bom para 44%, e Doria para 27%. O presidente é ruim ou péssimo para 30%, e o governador para 36%.
DISTANCIAMENTO.
Em Taubaté, Ortiz ficou marcado por, ao lado de Doria, vaiar manifestantes ligados ao PSL que protestavam contra o governador em um evento em outubro de 2019. Na época, Bolsonaro ainda pertencia ao partido – o presidente deixou o PSL no mês seguinte. No evento, Doria chamou os manifestantes de “vagabundos” e “canalhas”. Em 2020, nem Ortiz e nem Cursino fizeram qualquer aceno público ao governador.
Em São José, a tentativa de descolamento da imagem foi maior ainda. Ainda em abril, logo no início da pandemia, Felicio passou a contestar publicamente as regras de quarentena impostas por Doria no estado. Além disso, assim como Bolsonaro, o prefeito passou a defender a retomada imediata das atividades econômicas.
As críticas públicas de Felicio a Doria se estenderam até agosto, quando o prefeito escreveu um artigo para OVALE em que disse que as cidades do interior estavam agonizando com a política equivocada do governo estadual.
Na última semana, outro candidato ao Paço, Dr. Cury (PSB), ironizou o sumiço de Doria na campanha de Felicio. “É importante lembrar ao eleitor que votando no atual prefeito você estaria fortalecendo o Doria para presidência. Não podemos ficar refém dessa política mentirosa do Felicio, escondendo o Doria. Doria e Felicio é a mesma coisa, o povo não é bobo”.
Em São José, PSDB nega tentativa de esconder Doria; em Taubaté, silêncio
Questionado pela reportagem, o presidente em exercício do PSDB de São José, Anderson Farias, que é o candidato a vice-prefeito na chapa de Felicio, negou que o partido esteja tentando esconder Doria. “Não tem nenhuma estratégia de tirar ou colocar [o Doria]. São campanhas distintas. Ele é governador e, até pela pandemia, a agenda fica mais restrita. Não tem nem como fazer agenda de reunião”, alegou Farias, que disse não haver vencedor na briga entre o governador e o presidente. “Com essa disputa politica de vacina entre Bolsonaro e Doria, quem perde somos todos nós”. Farias disse ainda que não está descartado que o PSDB estadual envie material de Doria em apoio a Felicio. “Pode ter, caso o partido envie. Mas, nesse momento, o foco maior é apresentar propostas, principalmente nessa reta final da campanha”.
Nem Ortiz, que é presidente do PSDB em Taubaté, e nem a coligação de Cursino quiseram se pronunciar.