O médico e ex-ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, confirmou a OVALE que está disposto a ser candidato a presidente do Brasil em 2022, à frente do que chama de uma “terceira via” contra a polarização entre o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e o ex-presidente Luis Inácio Lula da Silva (PT), que recuperou seus direitos políticos na última semana.
Para Mandetta, o país não aguenta mais essa polarização. “O país já experimentou esses dois modelos e eles foram muito conflitantes e trazem mais problemas do que soluções”, disse ele em entrevista exclusiva a OVALE. Confira a segunda parte da conversa.
Como o senhor vê a volta do ex-presidente Lula ao cenário político?
O Brasil já vive essa polarização há uma década. Lula e Bolsonaro são a mesma crise, mas com o sinal contrário. É melhor que isso aconteça agora [retorno da elegibilidade do Lula] do que faltando alguns meses para a eleição. Vai dar tempo para esses dois extremos mostrarem a sua cara e para que a população veja que perderá com esses dois extremos. Haverá mais violência, confusão e o país não aguenta mais. Mais do que nunca a terceira via vai ter que se colocar.
Lula e Bolsonaro se assemelham?
O país já experimentou esses dois modelos e eles foram muito conflitantes e trazem mais problemas do que soluções. As pessoas não querem saber se é de direita, esquerda ou de centro. Querem alguém com capacidade de unir e pacificar o país, para enfrentar as nossas graves crises, de saúde, de educação, da cultura, do meio ambiente, do emprego. Precisamos fazer um país progressista, que atraia o mundo com segurança, saúde e qualidade de vida.
De onde virá essa terceira via?
Virá do povo, da base, do clamor das pessoas. Tem eco na sociedade para isso. O cidadão que não está a fim de embarcar nessa histeria coletiva, que é preciso defender cegamente e que vai gradativamente ficando mais radical. O cidadão que está a fim de trabalhar e estudar, ele sabe que esse caminho de briga não adianta. Temos brigas em famílias e entre amigos que se afastam por causa dessa política de fazer com que tenhamos uma polarização burra no país.
O senhor poderá ser essa terceira via nas eleições de 2022?
Parte dessa terceira via eu vou ser, porque não me enxergo nem no campo A e nem no campo B. Agora, quem vai ser o nome para conduzir esse processo? Se acharem que é o meu nome a conduzir isso, vamos lá, vamos ver, ajudar e negociar. Vamos construir, vamos conversar, vamos abrir o coração. Se for outro, o que precisar de mim eu vou fazer, como entregar santinho no Viaduto do Chá [em São Paulo] e fazer campanha. Quero acreditar naquilo que for melhor para o país. Na campanha das Diretas Já eu estava na faculdade e achávamos que, se votássemos para presidente, todos os nossos problemas estariam resolvidos. E eu fiz aquilo com brilho no olho, entregando santinho na esquina da faculdade. Eu era do grêmio estudantil. Eu quero aquela mesma política, o mesmo sentimento que tinha aos meus 20 anos. Quero aquili ali para eu acreditar. O outro caminho é ir embora do Brasil, é desistir do Brasil e fazer como milhares de jovens estão fazendo. Mas não dá para ir embora. Temos que lutar aqui dentro.
O governo Bolsonaro não se preparou para combater a pandemia no país?
Tínhamos três pilares onde queríamos ir: proteção da vida, defesa do SUS e as decisões pela ciência, isso montado em eixos. O primeiro era prevenir e o presidente fez questão de boicotar a prevenção. O segundo era a atenção, o atendimento. Enquanto falávamos que era uma virose e precisava ter o seu ciclo definido, e que não havia remédio, ele pegou um remédio [cloroquina] e disse que todo mundo devia tomar que não tinha problema. Criou uma falsa medicação e boicotou o eixo do atendimento. E tínhamos o eixo da testagem para separar os positivos. Ele mandou o Ministério da Saúde não mais testar e trocou toda a equipe, e colocou um militar no comando. Foi boicotado a ponto de os testes perderem os prazos de validade. No eixo da vacina, da ciência, precisaríamos ter adquirido as vacinas em agosto e setembro. Deveria ter comprado de vários laboratórios. Precisávamos de um mix de vacinas. Então, ele boicota e aposta no movimento antivacina. Não há nenhum dos eixos que o presidente tenha colaborado. Os números estão aí. Vamos chegar a 3.000 óbitos diários no país.
O presidente já aglomerava naquela época?
Naquela época, ele tinha aquela coisa de ir em direção às pessoas, ia na Ceilândia [em Brasília], em padarias, queria passar uma sensação de normalidade de que não tinha nada. Eu dizia para ele não fazer isso, porque o exemplo ia acabar minando a única arma que a sociedade tinha para se proteger, que era guardar distância, não aglomerar. O que tínhamos que fazer? Melhorar transporte público e outras coisas. O país não estava e nunca esteve em lockdown. É lógico que a gente tinha que permitir [algumas atividades], mas com todo mundo sabendo [dos cuidados] e na mesma direção. Era impossível fazer isso numa favela? Não, até porque tínhamos um plano sendo feito só para áreas de favela, de testagens, para retirar doentes, para tomar alternativas com mais isolamento. Tínhamos armas dentro do sistema de saúde, conhecemos as moradias, os hábitos, as pessoas, há um vínculo. Oitenta e seis por cento da população usa 100% o SUS, é dependente do sistema. Você pega isso e deslancha. Mas virou cada um por si. Cada um faz a sua regra. Há brigas dentro das famílias. O vírus adorou.
Bolsonaro não assumiu a responsabilidade?
Ele jogou a culpa no Congresso, na China, na Organização Mundial da Saúde, em mim, no Supremo Tribunal Federal e agora joga a culpa nos governadores e prefeitos. Daqui a pouco o culpado vai ser o cidadão brasileiro. Ele [cidadão] vai ser culpado de ter nascido no Brasil. Ele [Bolsonaro] disse para as pessoas não sofrerem, não chorarem seus mortos, o que não é bom. Realmente acho que ali teve uma série de posições contrárias a tudo o que é da natureza humana.
O Brasil tinha preferência na compra de vacinas?
De uma Ferrari viramos uma carroça enferrujada. Estamos devagar e só temos uma vacina sendo produzida, que é a do Instituto Butantan. A da Fiocruz não produziu ainda. Se não tivesse o Butantan, não teríamos nenhuma vacina. Os laboratórios queriam colocar aqui porque sabiam que somos um país complicado, que não faria lockdown, que o vírus estava circulando bastante. Mas a gente sabe vacinar muito bem. E o laboratório sabia que, se a gente vacinasse e houvesse controle da doença no Brasil, seria o ‘cartão de visitas’ da vacina deles para o mundo inteiro. Eles queriam um país com o perfil do Brasil e tínhamos capacidade de negociação muito boa, com 215 milhões de pessoas e isso dá uma escala grande. Poderíamos ter, com essa medida, ajudado o Mercosul, com uma compra em bloco. Daríamos uma demonstração de capacidade de política de relações internacionais, solidariedade, de solução e poderíamos ter saído na frente. Era o melhor caminho.
Além de não ter comprado as vacinas com antecedência, Bolsonaro, seus filhos e membros do governo arrumaram conflito com a China. Como o senhor viu isso?
Eu falava na época para não brigar com a China, porque eles tinham máscara, respirador e insumos. Estava tudo lá. Consegui trazer algum equipamento de proteção por causa da minha amizade pessoal com o ministro da Saúde da China. Se fosse depender da política externa do chanceler [Ernesto Araújo], eles brigavam com todo mundo. Teve também essa pedra enorme no caminho, que era a posição do Brasil no mundo. O país se aliou com [Donald] Trump [ex-presidente dos EUA]. Tudo o que ele falava, o Bolsonaro reproduzia aqui. Só que eles têm uma força econômica que nós não temos. Faltou visão de estado, de estadista, visão do Brasil no mundo.
Bolsonaro tem formação militar e há muitos militares no governo. Numa situação de guerra, os militares criam um centro de comando para centralizar as decisões. Por que não o fizeram contra o coronavírus?
Por que o chefe geral deles é o presidente e ele quer retirar o governo de qualquer enfrentamento. Ele está mais preocupado em quem pode culpar do que em enfrentar o problema. Já perdemos em vidas um Exército brasileiro inteiro. Em um ano perdemos um Exército inteiro, pelo número de baixas. Se for essa a lógica militar e tiver uma guerra, os militares vão ter que rever. Ou vão mandar o soldado descalço para depois mandar o sapato? Vamos acabar muito mal.