RESTAURO. Quem vê hoje a Imagem original de Nossa Senhora Aparecida em seu trono pode não imaginar que há 40 anos, o maior símbolo da fé católica brasileira foi reduzido a mais de 200 pedaços. Isso porque em 16 de maio de 1978, um jovem de 19 anos quebrou o vidro que protegia a Imagem na Basílica Velha e atirou no chão a frágil escultura de 39,5cm. Depois de 33 dias de trabalho, ela foi finalmente restaurada e levada em carro aberto até Aparecida (SP), onde é venerada até hoje por mais de 13 milhões de peregrinos. O trabalho foi realizado pela artista plástica Maria Helena Chartuni, que na época, trabalhava no Museu de Arte de São Paulo (MASP). A ideia inicial, entretanto, era de levar a Imagem para ser restaurada nos Museus do Vaticano. "Quando os padres entraram em contato com o então diretor dos Museus, o professor Deoclécio Redig, ele desaconselhou o envio da Imagem para Roma afirmando que no MASP ela poderia ser melhor acondicionada", conta o coordenador da Comissão de Bens Culturais e Históricos da Arquidiocese de Aparecida, padre Vitor Hugo Lapenta, C.Ss.R.
O acordo foi firmado entre o professor Pietro Maria Bardi e os Missionários Redentoristas, que levaram a Imagem da Padroeira a São Paulo na manhã do dia 28 de junho de 1978. Foi neste dia que Maria Helena e outra Maria, Nossa Senhora Aparecida, foram apresentadas uma à outra.
"Muitas pessoas sempre me perguntam o que senti diante da Imagem de Aparecida. Não consigo descrever exatamente, mas foi um misto de medo, responsabilidade e receio de não conseguir realizar o que tinha pela frente", recorda Chartuni. A partir daquele momento, um trabalho laborioso passou a se desenvolver. Foram dias ininterruptos de trabalho realizados em segredo numa sala isolada no prédio do Museu. "Na época informamos que técnicos do Vaticano iriam restaurar a Imagem, isso para garantir o sigilo dos trabalhos realizados", recorda Lapenta. O segredo era extensivo até mesmo para quem trabalhava no local. "Os funcionários do Museu foram advertidos para guardar sigilo absoluto, a fim de que o trabalho não sofresse especulações", disse a restauradora.
EXPERIÊNCIA.
Chartuni já faz parte da história da devoção na Padroeira do Brasil. Seus relatos são contados em todo o mundo, em entrevistas para documentários e livros dentro e fora do país.
As lembranças deste período estão registradas em um diário que Maria Helena guarda consigo até hoje. Nele, há recordações de um trabalho que não só reconstituiu a Imagem de Aparecida, como também a vida da restauradora. "Renascia em mim, pouco a pouco, uma nova vida. Este foi meu maior desafio e a maior bênção da minha existência, transformando meus conceitos", relata Chartuni, que na época, havia deixado de lado as práticas religiosas. "Esta experiência fez cair por terra aquilo em que acreditava, fazendo-me voltar para Deus e descobrir, por conta própria, que as melhores coisas que nos acontecem caem, literalmente, do céu como um presente". Nas páginas do diário, lembranças como a separação inicial dos fragmentos e a fixação da cabeça no corpo. Também ali, detalhes pouco conhecidos da reconstituição, como o preenchimento de parte da face direita com pó da Imagem, resultante de pedaços tão pequenos que não possibilitaram sua utilização no restauro. Isso porque a artista não queria desperdiçar nenhum pó da Imagem, mas integrá-lo a escultura restaurada. "Até a poeira que não conseguimos utilizar foi colada dentro da Imagem. Fiz isto porque não se tratava de uma obra de arte comum, mas sim uma Imagem venerada e querida pelos brasileiros", disse ela..