Eu lido com o peito do meu pé vermelho, enterrado na areia. Sempre esqueço de passar o protetor no rosto, imagina no peito do pé. Daí tenho que lidar com minha cor de austríaco no Rio de Janeiro. Já ela pensa se vai fazer fogo ou não. Ela, na lagoa. Eu, no mar. Enquanto lido com o sol, ela lida com o frio que chega forte ou talvez seja só uma brisa. Ela gosta de brisa e da brisa. Temos isso em comum.
Eu visto uma camiseta que está descosturada bem abaixo do braço direito, de tanto tentar alarga-la para cobrir a barriga. Ela veste uma elegante calça branca e uma blusinha que ela mesmo fez. Ela está toda linda, pelas próprias mãos no outfit e pelas mãos do universo, com aquela boca, os cabelos esvoaçantes, o olhar. Eu, brejeiro, mal diagramado pelo destino. Parece que nos damos bem. Ela está deitada no chão, encostada no sofá. Eu, na janela, fumando. Ela não gosta de cigarro.
Mas gosta quando eu falo que a acho um tesão naquele vestido branco -- que ela também fez. Menciono uma vontade latente de levantar um pouco vestido e beijar-lhe as coxas. Ela acha graça. Eu, acelerado. Ela mata a bola no peito e cadencia as jogadas. Ela nem liga para futebol. Mas gostamos de uma mesma música do Miles Davis. Ela, de bicicleta, é poesia com luz mágica iluminando seus cabelos. Eu, de bicicleta, desvio dos carros sem educação em uma cidade sem personalidade, nem luz mágica, nem cenário. Mas o pôr do sol daqui é bonito, se você lembrar de parar para ver.
Tem um vermelho que ilumina os prédios, uma linha de magia. Mesmo assim, queria que ela estivesse aqui. Apesar dela me querer lá, talvez. Prometo usar uma camiseta sem furos. Em comum, gostamos de vinhos. Isso ajuda. Mil quilômetros distante, estico os braços e dedilho seus cabelos. Parece que consigo sentir sua pele, seu cheiro. Sua boca, seu gosto por baixo do vestido branco. Acordo sozinho, mas ela está comigo. Durmo sozinho, mas ela está ali, do lado, se ajeitando no meu travesseiro ruim. Ela me fala do dia, eu falo do meu. Nos orgulhamos pelas vitórias, tentamos entender as derrotas um do outro. Procuramos algum significado aqui e ali. Prometemos viagens, fodas e amor. E acreditamos que vai dar certo.
Concordamos que isso é loucura. Temos isso em comum. Mas evitamos rotular tudo isso. Deixamos para quem quiser dar o nome. Ou um samba. Vamos ver. Mil quilômetros distante dormimos tranquilos, com as mãos, pés e mentes enroscadas. Loucura. Dane-se..