Cê me dá licença que eu quero continuar falando sobre música? Obrigado. Vamos lá. Ainda inebriado pelos eflúvios maléficos da marofa do antes, durante e depois dos shows do Nublu Jazz Festival, com o suingue do Kamasi Washington e do Cymande correndo nas veias, tinha que buscar um som para essas tardes frescas de outono. Que combinasse algo de brasileiro, de dor de cotovelo, groove e lamento. Achei. "Cão", do Rômulo Fróes. A cabeça dói. Não é uma dor do tipo enxaqueca ou qualquer coisa física. É espiritual mesmo. Na verdade, não é nem uma dor. É um desespero. É aquela sensação que bate quando você tem certeza de que ela não vem mais. E tudo que você passou atravessa mente como flashback. "Já fui teu cão / vigia de uma luz sombria / o mais fiel / o sol que no teu céu cabia / mas não entendes / o meu delírio". O batuque lento, o clima sombrio, o lamento como há muito tempo não se ouvia. No fone de ouvido, ou como se estivesse na mesa ao lado, Rômulo Fróes, com sua voz rara e seu batuque próprio, canta tudo aquilo que você, no fundo, não queria ouvir: "eu canto só para aquela / que até bem pouco tempo vinha ouvir a minha voz / e o seu aplauso / já se ouvia lá do camarim / eu canto só pra aquela / que não vejo na plateia mais / ou bem melhor / pra aquela que não vejo em nenhum lugar". O jornalista Ricardo Pieralini definiu o Rômulo Fróes no site Gafieiras. definiu de forma genial: "Rômulo é praticamente uma facada num coração abandonado de amor". Aqui ele falava da música "Atrás dessa amizade". Mas, sinceramente, no disco "Cão", todas as 14 canções são facadas no coração, tiros no peito. Paulistano, Rômulo Fróes carrega o melhor do samba paulistano. O timbre da voz de Fróes arrepia. Na regravação de "Mulher sem alma", de Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito, é difícil não se desmanchar."Cão" traz o melhor samba paulistano para o século 21. Em "Quem", a participação de Dona Inah, uma das pastoras da Velha Guarda da Nenê de Vila Matilde, transforma a canção em clássico - aliás, Clara, Irene e Laurinha, também da Velha Guarda da Nenê, aparecem em "Atrás dessa amizade". muito mais do que modernizar o samba, em "Cão", Rômulo Fróes moderniza aquela dor que você sente quando tem certeza de que ela não vem. E essa dor vai sempre existir. E quando acontecer com você, saiba que é bom contar com o batuque do branquelo da mesa ao lado.