Na tarde desse sábado, dia 23 de outubro de 2021, o público do 35º Festivale assistiu ao espetáculo Memórias Arpilleras,um trabalho feito por mulheres que traz à tona os embates entre gerações, nas figuras da avó, uma arpillerista e sua neta, uma adolescente no mundo das conexões digitais. O espetáculonasceu do desejo, do recém-criado grupo, de se encontrar com o público infanto-juvenil. “No Solo” é um grupo de primeiras vezes: primeira vez que ganharam um edital público de primeiras obras, “primeira vez de Cy Medeiros na direção, primeira vez da Julie Centeno na sonoplastia, primeira vez da Ana Clara Machado e Lusiane Veloso, na produção e gestão de um projeto e atuação em um espetáculo autoral e a primeira dramaturgia da escritora Adriana Soares” – assim essas artistas da cena se apresentam.
Adriana Soares, em sua primeira dramaturgia, faz jus ao próprio tema do espetáculo ao bordar com suas delicadas mãos a escrita desse documento histórico que é a arpillaria e devolver para nós, espectadores, um documento poético tecido de forma brilhante e cheio de encantamento. A nova geração hiperconectadaque envia e recebe inúmeras mensagens por meio dos seus celulares se choca e demora a compreender a geração de mulheres que enviavam seus recados por meio dos bordados – como é o caso das chilenas arpillerasdurante o regime do ditadorAugusto Pinochet.
Cy Medeiros, atriz e artista visual, assume pela primeira vez a direção de um espetáculo teatral e, do mesmo modo que a dramaturgia tece as relações entre a avó e a neta, a própria “arpilharia” está presente no conceito da encenação que junto com as demais criadoras dá um tratamento cênico muito cuidadoso e bem acabado ao espetáculo.
As atrizes Ana Clara Machado, Julie Centeno e Lusiane Veloso embora no começo de suas carreiras como atuadoras conseguem nos manter o tempo todo com a atenção voltada para a fábula, emocionando a todes nos momentos mais sublimes da peça. O trabalho com a música ainda merece uma atenção maior por parte da equipe técnica-artística. A preciosidade que essa reunião de mulheres artistas por si já possui, só tende a aumentar a medida em que incorporam ao coletivo a diversidade de corpos e etnia de outras mulheres.
O ambiente cenográfico poderia facilmente servir de instalação artística para as crianças passearem e explorarem após o espetáculo – uma vez que os elementos e objetos de cena são belíssimos, além das pinturas de rosto das mulheres evocadas durante o espetáculo, dentre elas: Cora, Cecília, Anita, Dandara, Chiquinha, Elza, Ana, Marias e muitas outras...
O espetáculo foi criado dentro da pandemia do Coronavírus e, por esse motivo,infelizmente, ainda não teve o seu contato direto com o público almejado. Mas, isso está prestes a se resolver com as reaberturas das salas de espetáculo.
Um espetáculo que precisa ser cantado e contado para muitas (e muitos!) adolescentes de todo canto possível.
Viva o Festivale! Viva o No Solo!