Eleições 2022

‘Brasil não aguenta mais polarização’, diz Ciro Gomes em visita ao Vale

Por Xandu Alves |
| Tempo de leitura: 6 min
Ciro Gomes em Aparecida
Ciro Gomes em Aparecida

Ex-governador do Ceará e ex-ministro da Fazenda e da Integração Nacional, Ciro Gomes (PDT) comparou a polarização entre o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva a uma “bola de chumbo” que trava o país.

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“Chega dessa bola de chumbo de votar no Bolsonaro para nos livrar do Lula e agora votar no Lula para nos livrar do Bolsonaro. Brasil não aguenta mais isso”, disse o pedetista a OVALE.

Garantindo que estará no segundo turno, Ciro defendeu mudanças na economia e na política e disse que quer reconciliar o país.

Confira a entrevista na íntegra.

Há mais discussão de suas ideias do que de seu comportamento?

Sou uma pessoa muito comportada. Não tenho nenhum mau comportamento sob o ponto de vista da minha conduta moral. Apenas sou uma pessoa que se dói muito com a dor que o nosso povo está passando. Nunca houve tanto sofrimento, humilhação, atingindo tantas pessoas como nesse momento do Brasil.

Mas, sim, esse lado trágico está predispondo as pessoas a um pouco mais de atenção. É isso que estamos pedindo. A eleição não pode ser um debate de Chico contra Maria e Manoel. Não pode ser luta de ódios e paixões simplórias. Temos que discutir as causas da tragédia econômica e social do Brasil e procurar, juntos, acharmos os caminhos para solucionar os problemas do país.

Estou propondo com clareza, as bases de um novo projeto nacional de desenvolvimento que muda o modelo econômico e o de governança política, hoje assentado na corrupção e no clientelismo.

Brasil aguenta novamente eleger alguém para que outro não ganhe?

É uma tragédia que já passou de qualquer limite e os números são trágicos. Você tem entre trabalhadores precarizados, desemprego aberto e desalento, mais de dois terços da população trabalhadora brasileira. A renda brasileira está indo para o vinagre. A inflação voltou pesada no custo de vida das pessoas, passa de 30% dos mais pobres.

E o sistema político só manda notícia de roubalheira, de orçamento secreto e roubalheira na vacina, de maneira que teremos nessas eleições de 2022 talvez a última oportunidade de o Brasil debater com inteligência, com equilíbrio. Que a gente saia da eleição num grande esforço de reconciliação nacional. Chega dessa bola de chumbo de votar no Bolsonaro para nos livrar do Lula e agora votar no Lula para nos livrar do Bolsonaro. Brasil não aguenta mais isso.

Com quais partidos está conversando?

Nesse momento, todo mundo está conversando com todo mundo. Quero usar esse momento precioso aqui em São José dos Campos para conversar com as pessoas com calma. Explicar o que está acontecendo, mostrar os números da economia, as propostas que tenho para resolver o problema. Daqui a pouco é foguete, música, passa ligeiro e perde a ocasião. Então, estou fazendo isso com muito carinho e paciência. A minha sorte está na mão do povo brasileiro. Não vou fazer conchavo para ser presidente do Brasil. O que quero é unir o povo brasileiro ao redor de um novo projeto, que precisa mudar o Brasil.

Com seu discurso econômico mais à esquerda, como convencer o empresariado?

Paciência e humildade como estou fazendo aqui [em São José]. Amanheci em Fortaleza, acordei de madrugada, peguei um avião da TAM, não ando em jatinho da Prevent Senior, como o Lula infelizmente está andando, peguei um carro para conversar com 50 empresários do Vale do Paraíba, porque considero muito importante que a gente entenda o que está acontecendo no Brasil.

Minha sorte está na mão do povo brasileiro. Não vou vender a alma para ser presidente do Brasil. Quero conversar com todos porque quero sair dessa eleição com a capacidade de reconciliar, de unir de novo o Brasil ao redor de um projeto nacional que tem resposta e lugar para todo mundo.

Agora, o empresariado tem que ouvir o que estou dizendo. Precisamos fazer uma reforma tributária num momento em que a crise das contas públicas está destruindo o investimento, e sem investimento o país não cresce e temos que resolver isso. Espero que entendam que é preciso cobrar impostos de forma mais justa no Brasil. Apresentei a proposta aqui claramente. O empresário reagiu e disse que é o que se faz no mundo inteiro. Vamos ver o que consigo. Pelo menos sairá daqui uma relação de respeito.

Se ficar entre Bolsonaro e Lula no 2º turno, o que vai fazer?

Vou estar no segundo turno. Vou proteger o Brasil de ter que escolher entre o coisa ruim e o coisa pior. Não dá mais.

O que fazer para recuperar a ciência?

Tenho conversado com as instituições da academia, da ciência brasileira, da SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência), e o compromisso meu que está escrito no meu livro e programa é gradualmente avançar para 2,5% do PIB com investimento em ciência e tecnologia. Isso tem que ser feito concretamente porque o outro nome de soberania nacional e desenvolvimento é ciência, tecnologia e inovação.

A economia do conhecimento e a economia digital exigem que o Brasil aperte o passo porque estamos ficando perigosamente para trás nesta disruptura que as tecnologias estão produzindo no mundo inteiro. Quero ser a pessoa que vai devolver essa prioridade ao centro da vida brasileira.

Qual a importância do Vale?

A região precisa retomar sua vocação tradicional para a indústria. Hoje, o epicentro da desindustrialização é o cinturão metropolitano de São Paulo e o eixo Dutra, onde está o Vale do Paraíba. Brasil fechou 30 mil indústrias do desastre do governo do PT para cá. E é preciso que a gente entenda que consertar a política cambial, de juros, restaurar a condição de capacitação tecnológica e científica de assistência técnica à modernização tecnológica e científica do aparelho produtivo é um imperativo que o governo deve assumir como responsabilidade.

Na minha cabeça está também a necessidade de diversificar estrategicamente o perfil produtivo, e o Vale tem massa crítica para isso. Desde um turismo, que se revela na [Serra da] Mantiqueira e pode ser potencializado, até e especialmente a economia do conhecimento, que já não é mais industrial, mas é toda uma economia digital, que tem aqui massa crítica para isso, engenharia pujante, o DCTA e ITA que são as pérolas mais vistosas dessa joia que é o Vale do Paraíba.

Estou bastante atento até porque recuperar o Brasil passa por entender que o centro da crise econômica brasileira é São Paulo, mas a saída da crise passa necessariamente por São Paulo e pelo Vale do Paraíba e o eixo Dutra como um todo. E uma coincidência: eu nasci em Pindamonhangaba.

Sérgio Moro sairá candidato? Vai debater com ele?

Se ele aparecer, temos que tirar a máscara desse marginal. Um juiz que condena um político para depois ser ministro de um político que ganhou a eleição. Um juiz que vende a toga para trocar por política e para ser ministro. Um juiz que vai para o Ministério da Justiça e acoberta a roubalheira dos filhos do Bolsonaro, que quebra a grande corporação da construção pesada brasileira, destrói centenas de milhares de empregos e depois vai trabalhar para uma firma americana que administra a massa falida da Odebrecht é um pilantra que tem que ser desmoralizado.

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