A chegada da variante ômicron ao Vale do Paraíba exige mudança na estratégia de combate à Covid-19. É hora de os municípios adotarem a cautela para as ações no final do ano. Liberar geral é arriscado.
A opinião é de Wallace Casaca, professor da Unesp (Universidade Estadual Paulista), pesquisador da USP (Universidade de São Paulo) e um dos coordenadores plataforma SP Covid-19 Info Tracker.
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Segundo ele, a região pode entrar numa situação perigosa, com aumento de casos após aglomerações de final de ano e a chegada com força da variante vinda da Europa.
“Podemos criar um ambiente que seja a tempestade perfeita. Imunização decaindo e janeiro com alta de casos. Se olhar a Europa, há dois meses ninguém falava de aumento agressivo da pandemia”, disse Casaca a OVALE.
Confira a entrevista na íntegra.
Como avalia o momento?
Quando comparamos o cenário quando não tínhamos a população vacinada e agora, com mais da metade da população com o esquema vacinal completo, é um grande alívio e uma ponta de esperança para ao menos controlarmos e não deixarmos explodir os índices epidemiológicos no país. Quando observamos os dados, vemos que houve redução muito significativa. A situação é diferente da do final do ano passado.
Por outro lado, e a Europa também nos traz como lição, é que embora tenhamos a população vacinada não devemos abandonar as medidas básicas de forma completa, como alguns países fizeram e tiveram que retroceder. Medidas como a utilização de máscaras, por exemplo.
Por que isso é importante?
Vai ser difícil controlar e fazer valer a lei, além de sensibilizar as pessoas. O Estado está legitimando a retirada das máscaras. A Europa mostra que não podemos abandonar as medidas e ainda temos que fazer a testagem massiva, porque é importante detectar focos da doença e pessoas com capacidade de disseminar a doença. A Europa vem fazendo isso e os casos explodiram.
Avaliando o Brasil, que situação podemos ter?
Muito provavelmente aqui também está com muitos casos, mas como não testamos a gente não identifica. Temos esvaziamento dos dados por conta do sistema do SUS, das questões do Ministério da Saúde. Há problemas em atualizar os dados de casos de Covid.
A vacinação, por si só, é capaz de segurar um aumento de casos da Covid?
Há a questão da perda natural de eficiência de proteção máxima que a vacina confere. Há estudos que avaliaram as principais vacinas no mercado e qual era a eficácia ao longo do tempo, mostrando que há queda de 98% para 70%. Há redução dos anticorpos que a vacina induz. Há a proteção natural de quem pegou e tende a cair depois de um tempo. Além de seis meses da vacinação com a segunda dose, vai precisar da dose de reforço. Medida importante é extrapolar a terceira dose para todo mundo e manter a proteção máxima da população.
Como vê a situação do Vale?
Os surtos se concentraram em abril, maio e junho, e os casos começaram a cair com reduções significativas e sustentáveis induzidas pela vacina de junho para frente. Quem se infectar pela variante gama no final de janeiro de 2022, a coisa começa a ficar mais delicada e requer cuidados maiores. Se até lá conseguirmos vacinar esses grupos, colocamos isso para frente e consigo controlar e diminuir de forma drástica a circulação do vírus. Está todo mundo muito eufórico e parece que a pandemia acabou, mas a Europa nos mostra que não.
Quando deve terminar a pandemia?
Isso deve continuar circulando pelos próximos cinco anos. Vai ser importante tentar conviver com o vírus. A vacina nos possibilita controlar óbitos e internações e vai ser importante preservar algumas medidas até que tenhamos mais vacinas e medicamentos, que estão chegando e tende a baratear. É um processo.
O final de ano preocupa?
O final de ano é preocupante. Não deve ter a explosão do ano passado, mas deve aumentar. Quando a gente pega os feriados prolongados e olhamos a curva da RMVale, vemos picos locais de aumento de casos. Nada explosivo, mas teve picos depois dos feriados. Não devemos ter o cenário de faltar leitos, mas é importante controlar a transmissão. O risco é a possibilidade de criar janela de oportunidade ao vírus. Aconteceu com Manaus. É importante não repetir os mesmos erros.
Carnaval pode ser a tempestade perfeita?
Podemos criar um ambiente que seja a tempestade perfeita. Imunização decaindo e janeiro com alta de casos. Se olhar a Europa, há dois meses ninguém falava de aumento agressivo da pandemia. O que temos que aprender é observar o que aconteceu no passado, de achar que está sob controle, e a doença explodir. Se liberar tudo em fevereiro a situação pode fugir do controle.
Carnaval é diferente de outras aglomerações?
Tem particularidades que devem ser levadas em consideração, como gerar grandes aglomerações e isso acontece no país inteiro. É diferente de lotar os estádios, onde há controle e pré-disposição de tentar controlar a entrada de vacinados. Mas como fiscalizar o carnaval de rua? Não dá para manter o distanciamento. A essência do carnaval é a aglomeração. A situação está relativamente muito boa na comparação com o passado, mas o que nos garante que não iremos ter um aumento antes do carnaval? É melhor evitar e aprender o que está acontecendo na Europa. É preciso ter planejamento. Vejo com bons olhos tomar essas medidas de precaução. Há riscos e o carnaval vai potencializar esses riscos. As pessoas têm que ter sensibilidade.