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‘Não dá para ficar numa escola que olha pelo retrovisor ao invés do para-brisa’, diz Rossieli Soares

Por Xandu Alves |
| Tempo de leitura: 10 min
Rossieli Soares
Rossieli Soares

Rossieli Soares sonha com uma escola que atraia o jovem para a aprendizagem, que dialogue com os sonhos dele e que use a tecnologia para mobilizar o conhecimento.

Para ele, ainda estamos longe desse modelo no Brasil. Em São Paulo, Rossieli lidera a expansão das escolas de tempo integral, que passaram de 374 para mais de 2.000 e com mera de bater em 3.000 unidades até o final do ano.

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“Nos países desenvolvidos, todas as escolas são integrais. O Brasil precisa caminhar nessa direção”, disse o secretário a OVALE.

Rossieli foi o convidado de abertura do Fórum Online de Educação com o tema ‘Escola do Futuro’, realizado por OVALE em janeiro.

Confira a entrevista na íntegra.

Qual a sua expectativa do senhor para a educação no estado de São Paulo em 2022?

A primeira é ter aula. Nunca passei isso na minha carreira e nunca imaginei que enfrentaria uma pandemia como essa. Temos quatro anos de governo e no primeiro ano arruma-se muita coisa, é fase de transição e tivemos aula presencial. Já em 2020 e 2021 tivemos uma grande dificuldade. Voltamos em 2021 e a expectativa para 2022 é termos aulas presenciais para focarmos na aprendizagem, que perdemos muito por conta da pandemia. A solução principal passa por termos aula presencialmente, é nossa prioridade. Temos que focar nisso para não perdemos uma geração inteira.

Teremos um ano de recuperação? Quais as metas?

Primeira parte é evitar o abandono. A aprendizagem não poderá ser igual e tem uma diferença. Perder o vínculo do aluno com a escola é o pior que pode acontecer. Há jovens que estão tendo que trabalhar para ajudar a família. Quando eles perdem a prática de estudo, de ser estudante, é muito mais difícil a volta.

O momento para voltar vai ser mais difícil. Quem mais precisa é quem terá mais dificuldade. A classe que mais rpecisa da educação é que tem mais dificuldade por tudo isso que está passando, inflação alta e desemprego. Manter o vínculo e não ter o abandono, pelo menos não deixar subir a taxa, já será uma grande vitória. Será um grande esforço

Em 2022 e 2023, vamos ter para nos relocar no mesmo patamar que estávamos antes da pandemia, o que não é pouca coisa. Caímos muito em várias avaliações que fizemos ao longo do ano.

Missão da escola será a de não perder esse aluno?

Exatamente. Criamos programas como o ‘Bolsa do Povo Estudante’ que pagamos R$ 1.000 ao ano para dar incentivo a quem mais precisa permanecer fazendo as atividades e os programas. Nosso currículo foi alterado. Temos que ter coisas mais criativas também. A gente tem que conectar a necessidade dos estudantes com o que a escola está ensinando. Esse é um grande ponto. Os professores e diretores das escolas tiveram que se reinventar na pandemia. Nossos desafios são gigantescos nessa área e manter o vínculo é fundamental. Sem vínculo, a chance é zero.

Quanto a pandemia afetou o ensino?

Temos aspectos negativos que são muito claros, como a perda da aprendizagem e do vínculo com a escola. Mas começamos a ver coisas que tinham antes da pandemia e piorarm muito, como a angústia. Vimos que as competências emocionais desapareceram mais. Os jovens estão mais agressivos ou mais isolados. Tem um grupo que voltou mais agressivo e outro mais fechado dentro de si. A escola tem que apoiar esses dois grupos em situações absolutamente distintas e cada vez mais extremas. O comportamento emocional e psicológico foi muito mexido. Já tínhamos essa preocupação antes, com o caso da escola Raul Brasil [em Suzano, no qual dois ex-alunos atiraram e mataram oito pessoas em 2019, se suicidando em seguida]. Já tínhamos um olhar para as competências socio-emocionais, o bem-estar das pessoas. Agota ficou muito mais importante. Se o aluno não tiver bem, como ele aprende.

Temos outro grande desafio que aprendemos na pandemia e precisamos manter, como a proximidade com a família. Os pais entenderem um pouco mais a missão do professor efetivamente, pois tiveram que fazer uma parte desse papel. Acho que esse foi um desafio que não podemos perder agora. O lado positivo de atrair a família para mais próxima da escola. É fundamental.

Outra coisa é o uso de tecnologia mudou drasticamente na realidade das escolas. Não sou defensor da educação à distância por si só, pois nada substitui o presencial, mas também aprendemos demais. Estávamos parados no século 20 e precisamos avançar para o século 21. Esse é um aprendizado, um legado que temos. De tudo de ruim que aconteceu, algumas coisas vão permanecer e serem cultivadas a partir de agora.

A tecnologia tornou-se vital?

Foi uma imposição total. Saiu uma pesquisa logo no início da pandemia mostrando que 90% dos professores não tiveram treinamento para educação à distância. É óbvio que não, porque nunca foi objetivo e objeto das secretarias de educação do Brasil inteiro. E mais do que à distância, trabalhamos educação mediada por tecnologia. Há outras tecnologias que chegaram muito rápido e o professor teve que se adaptar. Há situações muito diferentes, com alunos pobres que não têm condição e limitação de equipamentos. O professor na sala de aula se conecta muito mais rápido com vários instrumentos. Houve um salto geracional muito grande. Hoje é mais fácil e amigável introduzir tecnologia nas escolas. A gente aprendeu muito e tivemos que fazer.

Há preocupação que surjam novos casos como o da escola Raul Brasil? O que está sendo feito para uma educação mais humanizada?

Antes da pandemia, aprovamos o currículo do estado e foi uma mudança drástica e introduzimos com muito mais energia, por exemplo, o desenvolvimento das competências socio-emocionais e uma grade curricular, com espaços curriculares, para os alunos discutirem projetos de vida, os sonhos dos jovens. As escolas têm que incentivar e mostrar caminhos de vida. Fomos trabalhar com outras perspectivas do desenvolvimento emocional.

Criamos um gabinete de segurança escolar e há uma equipe da polícia que fica dentro da Secretaria de Educação monitorando com a gente todas as situações que envolvem estudantes dentro das nossas escolas, incluise investigação que fazemos constantemente em redes, sobre eventuais ameaças. Hoje temos uma estrutura que monitora. Não falamos dos casos para não incentivar, mas já desbaratamos algumas tentativas e possibilidades de ataques no estado na nossa estrutura.

Outra medida que nasceu a partir da escola Raul Brasil é o programa ‘Conviva’, que traz esse aspecto da melhor convivência dentro das escolas que estamos querendo. Temos o ‘Psicologia Viva’ para a contratação de psicólogos com atividades tanto para a formação de professores quanto para estudantes. Não faz o atendimento clínico, que não é a nossa função, mas é um quadro importante de apoio às nossas escolas. Então, uma série de coisas para o suporte para as pessoas foram criadas a partir da tragédia na escola Raul Brasil.

De uma forma geral, o professor precisa ser mais valorizado?

Isso é extremamente necessário. A valorização tem vários aspectos. Um deles é o reconhecimento da sociedade para o professor como funçãp social fundamental. Temos buscado fazer isso. Obviamente tem a parte da remuneração. Pagar bem é importante para atrair novos talentos. Os jovens não querem ser professores e um dos fatores, mas não o úncio, é a questão salarial. Apresentamos no final de 2021 ao governador João Doria a nova carreira dos professores. Hoje o salário inicial é de R$ 2.886 e vamos enviar à Assembleia Legislativa, no início de fevereiro, a nova carreira na qual o salário inicial passa para R$ 5.000, um crescimento bastante importante, sem falar em outros aspectos. No final das contas, todos os espaços de valorização são importantes, senão não atrai e retém o talento. Precisamos avançar nesse tema em 2022.

Qual o impacto da nova carreira no orçamento da Educação?

Devemos ter um investimento de quase R$ 3 bilhões na nova carreira, vai depender do mês da aprovação e acreditamos que deve aprovar até março. A perspectiva é muito boa no nosso modo de ver e o investimento é altíssimo, mas a gente tem condição e vamos conseguir fazer os investimentos para os professores. Vai impactar nos novos e nos atuais professores, que poderão optar por vir para a nova carreira. Vai ser opcional.

Investir em escolas de tempo integral é o caminho?

Para mim, um dos grandes feitos que estamos fazendo é aumentar. Tínhamos 374 escolas de tempo integral em 2018 e de 2019 para cá estamos passamos de 2.000 escolas. Vamos chegar a 3.000 até o final deste ano. Estamos reformando e construindo escolas para que o ensino integral tenha mais tempo na escola. Na pandemia isso ficou mais importante, mas em todos os aspectos de proteção da criança é fundamental. Nos países desenvolvidos, todas as escolas são integrais. O Brasil precisa caminhar nessa direção.

Para o senhor, qual é a escola do futuro?

Tem que ser uma escola que atraia aos nossos jovens, que ele possa sentir prazer em aprender. Que o aprender faça sentido para ele. A gente é muito desconectado da juventude, do que está acontecendo fora. Não dá para ficar numa escola que olha pelo retrovisor em vez de olhar para o para-brisa. Olhamos só para o passado. Cadeiras enfileiradas uma atrás do outro como se o professor fosse o detentor de todo o conhecimento. Não somos mais.

O conhecimento está na palma da mão, no celular e na internet. Temos que ensinar os alunos a mobilizar esse conhecimento, como usá-lo, como selecionar a informação, porque tem muita porcaria também. O jovem passa por uma transformação com apoio do professor. Precisamos reconectar os jovens com esses saberes que estão à disposição.

A escola precisa estar calcada no sonho dos jovens, que sonha alguma coisa. É aqui que vamos atrair ele para a aprendizagem. Muitos sonham em ser jogadores de futebol. Não tem que desestimular, mas mostrar que há outras possibilidades e mostrar que tem que ser muito bom naquilo que quer ser, mas que está conectado com outras disciplinas.

A ciência está na alimentação e no material esportivo. Jovens com problemas de aprender geometria, mas há isso nas quadras de esporte, onde há muitas figuras geométricas. Tem tantas formas de trazer o prazer de aprender conectado ao que ele quer fazer. Mostrar como se aplica. A escola do futuro está ligada ao sonho, ao protagonismo do jovem. A gente conseguindo colocar o conhecimento d emaneiras distintas. Caixinhas não dão certo, até hoje não deu certo em centenas de anos aqui no Brasil, sem integração nenhuma.

Que notícia o senhor gostaria de ler num jornal do futuro?

Algo relacionado à aprendizagem e à felicidade. Precisamos ter cada vez mais as duas coisas. Alunos aprendendo mais e sendo mais felizes. Tem que olhar para esses dois pilares. Não adianta aprender mais, somente. Tem que ter um equilíbrio das duas coisas. Estar num patamar de aprendizagem elevado com um patamar de equilíbrio emocional e felicidade é fundamental.

Por fim, como anda a educação no Brasil?

Deveríamos colocar a educação como ponto central no debate eleitoral, mas não vai ser. Um dos maiores fatores de desemprego no Brasil é o candidato não ter a qualificação adequada. A educação deveria estar no centro da discussão. Não basta dizer que vai ser prioridade, tem que mostrar como fazer para melhorar a educação e quanto isso impacta no processo econômico.

O Brasil não está bem na educação. Mesmo antes da pandemia, temos resultados muito aquém do que podemos ter. Estamos longe do que deveríamos estar. Há sempre algo a melhorar, e o governo federal precisa liderar isso. O Ministério da Educação ficou a ver navios, não tivemos isso.

O sistema educacional brasileiro não está funcionando. Tem que discutir isso que é fundamental para o país. Tem série de questões que precisam ser discutidas para o sistema nacional de educação. Vamos precisar reconstruir muirto a educação no país, com foco na aprendizagem para podermos avançar. Não podemos perder os jovens por falta de atratividade nas nossas escolas.

O governo tem que gastar melhor os recursos da educação e também investir mais. No pós-pandemia, precisaremos ajudar os estados e municípios que mais precisam. Olhar de apoio àqueles que mais precisam. Há muita desigualdade no estado de São Paulo, por exemplo. A educação de qualudade precisa chegar para todo mundo. Levar ensino integral para a periferia, para quem mais precisa. Temos muitos desafios no país.

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