Wagner Balieiro*
Novamente, o governo Jair Bolsonaro ataca uma instituição científica de grande relevância para o Brasil e a cidade de São José dos Campos ao exonerar a coordenadora-geral de Observação da Terra do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), Lubia Vinhas.
A Observação da Terra é a área do Inpe responsável, entre outras atribuições, pelo monitoramento da devastação da Amazônia, por meio do sistema de Deter (Detecção de Desmatamento em Tempo Real), o que demonstra o total descompromisso com a preservação do meio ambiente e, em especial, com a Amazônia.
Em agosto do ano passado, em meio à escalada nos focos de incêndio na Amazônia, o governo já havia exonerado o então diretor do Inpe, Ricardo Galvão. Na época, Bolsonaro desqualificou os dados do instituto e disse que os pesquisadores do Inpe deviam estar a "serviço de alguma ONG".
Agora, a exoneração de Vinhas acontece logo após o Inpe divulgar que em junho houve o maior número de alertas de desmatamento para o mês em toda a série histórica, iniciada em 2015. No acumulado do semestre, os alertas indicam devastação em 3.069,57 km² da Amazônia, aumento de 25% em comparação ao primeiro semestre de 2019. Só em junho, a área de alerta foi de 1.034,4 km².
Os dados servem de indicação às equipes de fiscalização sobre onde pode estar havendo crime ambiental. Os números não representam a taxa oficial de desmatamento, que é medida por outro sistema, divulgado uma vez ao ano.
Índices indicam que, mesmo na pandemia, a derrubada de árvores no bioma não foi interrompida.
Que essa decisão ocorra em plena aceleração do desmatamento, quando o governo precisa conter ameaças de desinvestimento, é sinal de que o governo federal parece estar tratando as preocupações em relação à preservação ambiental e aos interesses econômicos do agronegócio e dos investidores como trata as dos brasileiros aterrorizados pelo coronavírus.
A decisão de intervir no Inpe não está isolada de uma política mais ampla de desmonte do Estado brasileiro e de ataques às populações mais vulneráveis, com destaque às que habitam a Amazônia. Bolsonaro já havia vetado uma série de medidas aprovadas pelo Congresso Nacional destinadas à saúde de povos indígenas, quilombolas e demais comunidades tradicionais durante a pandemia.
Entre outros vetos, o presidente derrubou trechos que obrigavam o governo a fornecer água potável e materiais de higiene e limpeza, instalação de internet e distribuição de cestas básicas, sementes e ferramentas agrícolas para as aldeias; também vetou a liberação de verba emergencial para a saúde indígena e a obrigação de o governo oferecer mais leitos hospitalares e de UTI e ventiladores e máquinas de oxigenação sanguínea a povos indígenas e quilombolas.
Todas essas ações merecem o repúdio de todo brasileiro de bom senso, em especial das forças políticas de São José, que abriga o Inpe, um dos mais importantes institutos de pesquisa do país. O Poder Público Municipal pode fazer a diferença nessa tentativa do governo federal tornar o Instituto irrelevante. A Prefeitura não pode se omitir e deve utilizar sua força política na defesa e em solidariedade aos pesquisadores e trabalhadores da ciência de nossa cidade.
Não será escondendo e maquiando os dados ou investindo em propaganda que o governo irá mudar a realidade. Infelizmente, Bolsonaro não quer mudar os rumos da sua política, afinal, a destruição da produção científica brasileira faz parte de seu projeto do governo.
*Vereador pelo Partido dos Trabalhadores, em São José dos Campos