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Coronavírus: apenas 15% dos profissionais de saúde se sentem preparados para lidar com pandemia, diz estudo

Por Agência O Globo |
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Hospital de campanha para tratamento de covid-19 do Complexo Esportivo do Ibirapuera
Hospital de campanha para tratamento de covid-19 do Complexo Esportivo do Ibirapuera

No contexto em que parte expressiva dos hospitais do Brasil está sobrecarregada por conta da pandemia da Covid-19, que segue avançando pelo país, uma pesquisa conduzida pela Fundação Getúlio Vargas (FGV-SP) e divulgada nesta terça-feira pela Agência Bori concluiu que 64,97% dos profissionais de saúde pública não se sentem preparados para lidar com a crise. O principal fator indicado é o medo pela vulnerabilidade de quem atua na linha de frente do combate ao coronavírus.

O trabalho, coordenado pelo Núcleo de Estudos da Burocracia da Escola de Administração de Empresa de São Paulo (Eaesp), analisou as respostas de 1.456 profissionais de todos os níveis de atenção e regiões do país na última quinzena de abril, por meio de um formulário eletrônico. Nesse conjunto, o medo foi relatado por 91,25% dos agentes comunitários de saúde e dos agentes de combate à endemia. Entre estes, apenas 7,61% disseram se sentir preparados para as trincheiras dos hospitais no momento atual.

Entre enfermeiros, esse índice ainda é consideravelmente baixo: 20,09%. Entre médicos, 77,68% relataram sentir medo e vulnerabilidade pelo contato constante com pacientes. Os pesquisadores identificaram ainda uma fragilidade particular nos estados das regiões Norte e Nordeste.

Ao todo, apenas 32% deles relataram o recebimento de equipamentos de proteção individual (EPIs). Esse número é ainda menor entre agentes comunitários e de combate: 19,65%. Ao todo, 79% dos profissionais que responderam às perguntas são mulheres, 19,6% homens e cerca de 1% não informou o gênero.

Para Gabriela Lotta, professora da FGV e coordenadora do Núcleo de Estudos da Burocracia, os EPIs deveriam fazer parte da normalidade, e não das situações de emergência.

"Os EPIs são, obviamente, uma condição básica para o trabalho na saúde. Todo profissional deveria ter máscara, luva, álcool em gel. Sabemos que o Brasil atrasou muito na aquisição desses equipamentos. Tínhamos cerca de quatro semanas de preparação à frente dos epicentros na Ásia e na Europa, mas o país não fez compras antecipadas, não incentivou a indústria nacional a comprar antecipadamente o equipamento, e fomos comprar quando já estava muito em cima".

A pesquisadora lembra, ainda, que os EPIs não chegaram a muitos profissionais a despeito da normalização dos estoques no mercado.

"Isso é assustador. O que tem acontecido é: ou os profissionais compram seus próprios EPIs ou fabricam seus próprios equipamentos. O problema é que não sabemos a qualidade desses materiais, nem se conseguem dar a produção necessária. Em geral, os agentes comunitários de saúde e dos agentes de combate à endemia são os mais vulneráveis. Ainda assim, 37% dos médicos não têm acesso, o que dá a dimensão da gravidade", pontua Gabriela Lotta.

A vulnerabilidade dos profissionais da linha de frente do combate é ainda mais dramática para os agentes, que atuam muito além da crise da Covid-19.

"Esses profissionais são, por vezes, a única fonte de informação em territórios muito vulneráveis. Eles assumem um papel estratégico nesse momento, tanto para levar informação onde ela necessariamnete não chega, como também para ajudar e prevenir outras enfermidades. Não só no enfrentamento à pandemia do coronavírus, mas também na continuidade de acompanhamento de outras doenças e comorbidades", lembra Giordano Magri, pesquisador do núcleo.

Preparação

O estudo da FGV-SP também concluiu que parte expressiva dos profissionais não recebeu treinamento voltado para o contexto pandêmico. Apenas 21,91% afirmou ter recebido orientações específicas, a maior parte médicos. Além disso, 67% afirmaram não encontrar suporte por parte do governo federal. Já em relação aos Executivos estaduais, esse sentimento foi manifestado por 51% deles.

A falta de preparo se destaca entre os entrevistados das regiões Norte e Nordeste. O Sudeste, região que foi a primeira a ser atingida pela Covid-19, concentra as maiores fatias para o setor no país, o que, para Gabriela Lotta, reflete o histórico do sistema de saúde regional, mais desenvolvido do que em outras regiões do país.

"Fica muito evidente que as regiões Norte e Nordeste estão piores do que todas as outras. Claramente há uma desigualdade regional em todos os aspectos avaliados. Isso vem da desigualdade de capacidade dos estados. Sabemos por vários indicadores que há uma distribuição desigual de médicos, leitos de UTI e equipamentos no Brasil. No momento de pandemia, essas desigualdades acumuladas explodem. A catástrofe que Manaus está passando é exatamente o reflexo disso", avalia a professora da FGV.

Na avaliação da pesquisadora, muitos problemas são de fácil solução:

"Nós propomos sugestões que são fáceis. Não são grandes mudanças. São necessários testes periódicos do profissional, vídeos de treinamento para esclarecer desde o uso de máscaras até o que é fake news e o que não é, distribuir equipamentos. Não fazer isso é mais descaso governamental do que um problema complexo". 

Outro aspecto destacado pelo estudo é a forma como a Covid-19 mudou a rotina de trabalho: 88% dos profissionais ouvidos afirmaram ter mudado a forma de contato com os pacientes. Destes, grande parte cita o distanciamento físico. Ainda de acordo com a pesquisa, 75% dos entrevistados alegaram ter alterado procedimentos de trabalho. A introdução de novas tecnologias também é uma outra face da nova realidade.

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