Uma rosquinha gigantesca a bordo de um caminhão, sob escolta policial. A chama da vela queimando a bandeira dos EUA. Um monumento sendo arrancado por manifestantes. Pelo olhar do artista, a arte resiste. A arte é resistência em qualquer tempo. As três obras descritas no início do texto, a primeira de 2009 e as últimas de 2020, deixam isso claro. Elas foram produzidas pelo misterioso Banksy, artista britânico cuja identidade é desconhecida. Ele é hoje um dos grandes nomes da arte, com obras polêmicas e questionadoras, inquietantes. Transformadoras.
Afinal, a arte é resistência?
Em meio à pandemia, Banksy foi notícia mundialmente produzindo três obras. A primeira, uma homenagem ao NHS (serviço público de saúde inglês), mostrando os profissionais da saúde como os verdadeiros heróis. Depois, após a morte de George Floyd, fez o desenho de uma bandeira dos Estados Unidos sendo queimada por uma vela que faz parte do memorial de uma silhueta negra anônima.”Pessoas de cor estão sendo prejudicadas pelo sistema. O sistema branco”, publicou.
E por último, propôs que fosse erguida em Bristol um momumento dos manifestantes derrubando a estátua do comerciante de escravos Edward Colston (veja na página 37).
Para artistas, a cultura pode -- e deve -- servir como ferramenta de resistência contra o autoritarismo. E também uma forma de contestação.
“Acredito que a cultura e a arte têm esse grande potencial e papel de mudança onde atua. Seja de várias formas com grandes e pequenos projetos”, disse Mr.Fred, grafiteiro e produtor cultural, em São José dos Campos, que ficou conhecido pelo projeto ‘Galeria a Céu Aberto: O Fantástico Mundo de Mr. Fred’, em que pintou um grafite na lateral de um edifício na região central da cidade.
“Nós, artistas, e fazedores de arte e cultura, estamos contribuindo para que uma mensagem de reflexão chegue até a população. Um exemplo muito forte são trabalhos que realizamos na rua em grafite, pintura, artes plásticas, etc”, ressalta.
O artista plástico Alemãoart ressalta que o autoritarismo sempre existiu no Brasil. Segundo ele, alguns de seus trabalhos são feitos com crítica velada, como na ditadura.
“A democracia é a melhor arma que temos e a arte é o que mais incomoda”, disse.
OUTRA VISÃO.
Já o artista Fábio Polesi, de São Paulo, tem uma visão um pouco diferente e não acredita que esteja havendo uma onda de autoritarismo. “Não vejo esse tempo de autoritarismo. O que eu vejo, sim, é que a arte durante essa pandemia passou a ser mais valorizada. Saíram daquela vida louca, pararam e passaram a ver a arte. Mas não por causa de autoritarismo. Não vejo que a arte tenha que ser resistência a alguma coisa”, afirmou.