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Do fundo do poço para a esperança: histórias de dependentes químicos que foram ao inferno do vício e voltaram à vida

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Fazenda. Unidade feminina em Guará, onde está Alexandra; ao lado, Osmir Pereira, 47 anos, se recupera trabalhando
Fazenda. Unidade feminina em Guará, onde está Alexandra; ao lado, Osmir Pereira, 47 anos, se recupera trabalhando

Três dias longe da família, sem comer ou tomar banho, Tiago se jogou dentro de uma caçamba de lixo para fugir.

Mateus gastou todo o dinheiro da ceia de Natal e do presente da filha e sumiu por duas semanas. Sentiu vergonha ao voltar.

Ameaçada de perder a guarda do filho pequeno e o emprego de funcionária pública, Alexandra passou 10 anos vagando pelas ruas buscando a ilusão.  Osmir desmaiava e dormia em cima do balcão do próprio negócio, sem qualquer consciência de si mesmo.

Flertou a morte.

Os dramas acima são de pessoas diferentes, mas com uma paridade: relatos de dependentes químicos em recuperação no Vale do Paraíba.

Envolveram-se com alguma droga e destruíram a vida, cada um à sua maneira. Conheceram o fundo do poço e correram risco de nunca sair de lá. Hoje, enfrentam o desafio da sobriedade. Em quais recursos se apegam para superar o vício? O que é mais importante: a ciência ou a fé? São dimensões opostas? Complementares? Há confrontos?

Documento OVALE mergulhou na rotina de comunidades terapêuticas, acolhidos, médicos e religiosos para descobrir que papel a ciência e a fé exercem na recuperação.

LIXO.

Aos 29 anos, Tiago Reis chegou ao fundo do poço dentro de uma caçamba de lixo, em São Paulo, em 2018. Escondia-se da mulher e de amigos que o procuravam há três dias. Sem banho ou comida, vivia de drogas. “Minha esposa chorava muito, e eu já debilitado, não queria sair”.

A droga entrou cedo na vida de Tiago, que é de Potim. Na adolescência, seduziu-se pela criminalidade e foi preso aos 19. “Não vi meu filho nascer, não participei da criação”.

Tentando mudar de vida, casou-se e foi para São Paulo, mas as drogas voltaram. “Traficava e comecei a usar cocaína todo dia. Graças a Deus não conheci o crack”.

O episódio do lixo foi o fundo do poço. Depois dele, o irmão falou da Fazenda da Esperança, para onde Tiago veio em dezembro de 2018. “Chegando aqui, brigava com todos. Não conseguia entender o propósito da fazenda”.

A mudança veio quando entendeu que deveria aceitar os gestos de amor dos outros e fazer os próprios. “Não conseguia entender um homem falando que me amava. Não tinha muita fé. Mas aprendi a sair de mim mesmo, a viver pelo outro. Aqui, vi que Deus me ama e tem um propósito para mim”..

'Ciência percebeu algo de interessante na espiritualidade', declara psicóloga

Especialista em dependência química, a psicóloga Patricia Minari explica que o tratamento para deixar as drogas requer um conjunto de ações. Bom diagnóstico e avaliação clínica, interrupção do consumo, escolha do serviço mais adequado ao paciente (Caps, ambulatório ou comunidade terapêutica), presença da família, tratamento correto (medicamentoso, se necessários) e a espiritualidade. "São coisas que ajudam muito, como a pessoa ter uma rede de apoio ao redor dela. A espiritualidade é uma grande motivadora".

Patricia admite que já houve "muito conflito" entre ciência e fé, mas ambas têm se aproximado. "Tem que ver a diversidade do ser humano. Não sabe qual é a chave que vai virar [para deixar o vício]. A espiritualidade tem sido essa chave para muitos".

Psiquiatra defende tratamento médico e psiquiátrico, porém diz que fé pode ajudar

O tratamento da dependência começa com avaliação médica, conforme regulamentação. Investigam-se coração, rins, fígado, moléstias infecciosas, doenças psiquiátricas associadas e também aspectos sociais, ambientais e familiares, entre outros. "Objetivo é estabelecer um marco de início de uma fase de vida com perspectivas renovadas", diz a psiquiatra Márcia Gonçalves, professora e coordenadora de Psiquiatria, Psicopatologia e Psicologia Médica da Unitau (Universidade de Taubaté).

Defensora da "avaliação psiquiátrica antes e acompanhamento médico durante e após a abstinência inicial", a especialista reconhece o papel da fé ao lado da ciência, cada uma no seu papel e com objetivo de "reestruturar a vida da pessoa acorrentada às drogas".

Conversar com dependentes químicos é mergulhar no drama humano. O comum é a perda da dignidade, da identidade e de qualquer perspectiva de futuro.

No vício extremo, a vida perde o sentido. Não há sonho, só o próximo trago, a pedra seguinte, outra cheirada, o porre épico. As drogas retiram do ser humano a autoconsciência. O corpo urge o prazer imediato, que retirará todas as dores.

Mas elas voltam mais intensas e sombrias.

“Toda dependência é classificada como doença, há sinais e sintomas a identificar”, explica Patricia Minari, psicóloga de São José dos Campos e especialista em dependência química. “Como compulsão ou perda do controle, aumento da tolerância e síndrome de abstinência”.

Segundo a psiquiatra Márcia Gonçalves, professora e coordenadora de Psiquiatria, Psicopatologia e Psicologia Médica da Unitau (Universidade de Taubaté), há casos em que a dependência passa do limite de controle do indivíduo. “A vida do dependente já está em função do uso das drogas”.

Com o avanço do entendimento sobre a dependência, a pergunta a se fazer é: como eliminar o vício? O que é fundamental?

O franciscano de origem alemã Hans Stapel, um dos fundadores da Fazenda da Esperança em Guaratinguetá, uma das mais bem-sucedidas experiências de recuperação de dependentes no mundo, é taxativo: “Em primeiro lugar, a recuperação espiritual”.

Criada há 36 anos, hoje há 140 fazendas em 23 países, sendo 90 delas no Brasil, que ajudam mais de 3.500 pessoas, a maioria jovem, a deixar o vício da droga. O trabalho mereceu a visita do papa Bento 16, em maio de 2007, e uma mensagem do papa Francisco, em 2016. Em junho deste ano, o presidente Jair Bolsonaro (PSL) conheceu o projeto em Guará.

Na ocasião, disse Frei Hans: “Deixem-nos ser como somos. Não tentem mudar e colocar normas”. Ele reclamava de eventuais obrigatoriedades em manter médicos e psicólogos nas fazendas, serviços que atende de forma pontual.

Para ele, a fé é o centro: “O problema dos dependentes é mais profundo, é espiritual. A droga é uma fuga. Vi como a palavra de Deus recuperava”.

Garantidas as avaliações médicas iniciais, afirmou Márcia Gonçalves, a fé e ciência coexistem na busca pela reabilitação, “cada uma dentro de seu momento, exercendo seus papéis. Quero acreditar que ambas estão a favor da evolução dos homens”.

Presidente da Comunidade Terapêutica Nova Esperança, com quatro unidades em São José, Dulce Paulino diz que a espiritualidade é parte da recuperação por fazer parte da vida. “Não colocamos crença, religião ou doutrina. Falamos de Deus, do amor e perdão”..

'Não tratamos o drogado, mas a pessoa', diz coordenadora

Natural de Sergipe e formada em matemática, Daniela Lima tornou-se voluntária da Fazenda da Esperança e viu nascer a vocação por seguir o trabalho na recuperação de dependentes. Em 2013, foi morar na fazenda de Campo Grande, capital de Mato Grosso do Sul, onde ficou por cinco anos e tornou-se responsável pela unidade. No começo de 2018, assumiu a fazenda feminina de Guaratinguetá e fez votos de pobreza, obediência e castidade, mantendo-se leiga. "Tinha o desejo de me casar, mas renunciei por amor a Deus e para viver esse amor a todos". Cuidando da unidade e de 60 mulheres, Daniela diz que foi conquistada pela espiritualidade da missão. "O carisma da esperança é o de acreditar sempre". Explica: "A gente não tratar o drogado, a prostituta. É a pessoa. Porque a essência é boa. Foi ser feliz na droga. Então é acreditar nessa essência".

Fazenda tem rotina de fé, labuta diária e comunidade

O dia começa às 6h para os 138 homens da Fazenda da Esperança de Guaratinguetá. De várias partes do Brasil, estão ali para aprender a viver sem drogas.

Há várias casas e cada uma abriga até 20 acolhidos. Todos trabalham: nas fábricas de água sanitária e madeira plástica, limpeza, cozinha, animais, jardim, horta. As fazendas são autossuficientes.

Além das visitas, as famílias assumem o compromisso de vender uma cesta mensal com produtos feitos na fazenda para ajudar na manutenção. Não há mensalidade.

O primeiro momento na manhã é de rezar o terço. Segundo Frei Hans Stapel, um dos fundadores, a fazenda não impõe a fé católica aos acolhidos. Oferece espiritualidade. “Deus é pra todos. Já tivemos experiência até com muçulmanos”, conta Hilário Rosa, 58 anos, um dos coordenadores da unidade de Guará e consagrado à Família da Esperança, comunidade reconhecida pela Santa Sé.  “Quem não tem religião faz sua meditação”.

Segundo ele, mais do que religião, a fazenda entrega amor, compartilhado por pessoas alquebradas pelas drogas e que faz a diferença na recuperação, baseada em espiritualidade, trabalho e comunidade.

O público é um microcosmo da sociedade. “Venho de uma família muito boa, bem estruturada”, diz Mateus Petrucelli, 23 anos, de Pindamonhangaba. “Sou funcionário público concursado em Lorena, onde morava. Estudei até o ensino médio e fiz um curso técnico”.

A droga entrou na vida na adolescência. Aos 18, foi pai e logo depois se separou da mulher, entrando em depressão e afundando nas drogas.

Depois de sumir por duas semanas no Natal e gastar o dinheiro em drogas, internou-se na fazenda em janeiro. Hoje vê a vida diferente. “Me tornei católico aqui. As pessoas vão te ajudando. Pregam muito o amor, o respeito. O recomeçar, perdoar sempre. Entendemos o carisma quando colocamos o amor em prática”.

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