Magno Silveira

As cidades e suas marcas

Por Magno Silveira é designer e fundador do Magno Studio, escritório de design |
| Tempo de leitura: 4 min
Eu amo São José
Eu amo São José

Há algumas semanas, São José dos Campos celebrou seu aniversário. Todos curtimos os drones evoluindo no céu desenhando ícones da cidade: a ponte estaiada, o tori, a antiga matriz de São Benedito e ainda o satélite Amazônia. A mensagem é direta – a cidade une o tradicional ao desenvolvimento, à tecnologia. Tudo com uma ótima qualidade de vida, é o que sugere a "frase" estrelando no céu de drones – "EU <3 SJC"

Aquelas luzes me levaram novamente a uma antiga reflexão que cresceu quando me foi proposto pela administração municipal, há cinco anos ou mais, um grande desafio. Projetar a identidade visual de São José dos Campos. Cidade quase metrópole, quase interior, onde pessoas de várias regiões do Brasil e do mundo escolheram para viver, São José trafega entre diferentes "ícones" com algum potencial representativo, numa ânsia por algo que a simbolize. Exceto para cidades onde símbolos se impõem naturalmente (Rio de Janeiro com seu pães de açúcares e corcovados), construir uma marca que represente uma cidade não é fácil.   

Mas é justamente o que tem feito as maiores e mais vanguardistas cidades do mundo. Para uma cidade, a identidade visual ajuda a criar associações positivas e diferenciadoras. As imagens que orientam nossa cultura alcançam muito além dos sinais de trânsito e outras placas – elas moldam também, e principalmente, as emoções. Na sociedade imagética e digital, queremos emoções, relacionamentos, interações.

É o que promete a marca de São Paulo, desenhada por Rômulo Castilho, designer do escritório Future Brand. A letra P dispara o leque de cores, numa energia que traz a velocidade e a pluralidade absoluta oferecidas pela paulicéia desvairada. "Viva tudo isso". Viva de viver ou viva de celebrar? Ambos e mais além.

Devo dizer que em todas as análises de marcas neste artigo, me abstive dos aspectos técnicos e suas precisões de semiótica, gestalt, tipografia, grids e outros parangolés do design. Falo de conteúdo em primeiro lugar, mas entendo que conteúdo e forma são indissociáveis. Hylé e morphé.

A cidade de Paris, com todos os seus monumentos (a inevitável torre Eiffel), recorreu à tradição da brasonaria. O escritório de designer francês Carré Noir limpou "até o osso" o barco do brasão parisiense. Por que o barco? Eu, que nem a Eiffel vi, confesso ter navegado até a Wikipedia. Ora, o barco refere-se aos Marchands de l'eau (mercadores da água), uma "comunidade de mercadores de Paris que obteve por carta real de 1170, o privilégio de navegação no Sena". O lema da cidade, "Fluctuat nec mergitur" ("É sacudida pelas ondas, mas não afunda") remete também ao barco. Assim, Paris reconta uma história importante através de sua marca esplendidamente contemporânea.

É preciso registrar ainda a marca de Melbourne, a segunda maior cidade da Austrália. No projeto identitário criado pela Landor, escritório de design que mais admiro, é nítida a preocupação em expressar a diversidade de Melbourne. A cidade abraça inúmeras comunidades de pessoas do mundo todo, culturas múltiplas que vêm de fora, além da cultura local dos aborígenes. Melbourne, diversidade é a sua marca! Então, a equipe Landor projetou um símbolo de linhas retas e de simplicidade extrema e, por isso mesmo, comporta uma infinidade de cores, linhas, texturas, transparências, direções. Bravíssimo!

A MARCA SÃO JOSÉ DOS CAMPOS

Conforme disse, eis que tive a oportunidade de mergulhar na identidade da nossa São José dos Campos. Naquele ano do projeto, comecei flanando pela cidade, num descuido cuidadosamente planejado... Quis sentir novamente as sensações despretensiosas que tive ao chegar na cidade em 1991, vindo da Zona da Mata Atlântica mineira. Comecei pelo mesmo lugar que começara, pelo banhado. Sua curva abrangente, seu vazio contemplativo. Uma antesala para a majestosa Mantiqueira. Desde o antigo centro até a nova urbe, o banhado é um anel, uma conexão, um pacto. Depois vaguei pelas ruas a pé, de carro até o Parque Tecnológico da cidade e até o parque ecológico de Burle Marx e Rino Levi. Curvas me acompanhavam, insinuantes.

Porém, foi no Instituto Tecnológico de Aeronáutica – ITA – que as curvas tornaram-se incontornáveis. Elas vinham desde a geografia, desde os parques e jardins, até o concreto armado de Niemeyer. Havia encontrado o caminho das pedras. Daí, fui para o lápis e computador. Lembrei-me da "cruz" que Lúcio Costa traçara para o plano piloto de Brasília e, confiante, tracei minha cruz inaugural. Pronto. Determinei que a partir dali nasceria a marca São José dos Campos. O resultado, é melhor mostrar para ser melhor compreendido. Intitulei o projeto de "São José aos quatro campos".

Creio que o exemplo de aplicação dos módulos é suficiente para demonstrar o potencial da marca São José dos Campos para comunicar valores intangíveis da nossa cidade. A precisão das linhas, desenhadas a partir do grid construtivo, traz a tecnologia; as curvas trazem os "bons ares" da nossa região privilegiada. É importante registrar que, de tanto observar esta marca por tantos anos desde a sua entrega, resolvi fazer uma breve alteração na "letra" C e aqui apresento a marca com a alteração. Amadurecimento natural.

Nos meus trinta anos de designer, projetar a marca São José dos Campos foi um dos maiores prazeres que tive. Foi como se eu, já um legítimo joseense, prestasse homenagem a esta cidade de todos nós.

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