Um resultado intrigante numa experiência do neurocientista David Diamond na Universidade do Sul Flórida: ratos separados da ninhada e criados numa gaiola ao lado de gatos ameaçadores, tinham desempenho inferior quando testados em labirintos. Ou seja, esses ratinhos cresceram e ficaram, digamos, menos inteligentes. Submetidos a uma violência que não podiam evitar seus cérebros pareciam congelar. Curioso com essa informação o professor Patrick Sharkey, da Universidade de Nova York, foi pesquisar o comportamento escolar dos alunos nos bairros novaiorquinos violentos na época, especialmente aqueles que se depararam com cenas de mortes e violência extrema pelas ruas.
Essas crianças e jovens tinham desempenho escolar muito abaixo dos colegas mais distantes das cenas explícitas de violência. Elas não emburreceram por causa da violência, mas foi levantada uma questão muito mais profunda do que parece, o impacto emocional intenso nos jovens que afeta sua capacidade cognitiva, os mecanismos de perceber, avaliar, decidir sobre os fenômenos de seu cotidiano. A violência percebida muito próxima não desvanece pouco depois, ao contrário, ganha relevância tão intensa e extensa no psiquismo da criança que afeta também sua percepção e seu raciocínio. Há estudos que alertam para a tendência de muitas pessoas, especialmente jovens, de empreenderem respostas violentas quando criadas em ambientes de violência frequente. Na década de 1980 os estudos psiquiátricos na região de Boston, nos EUA, já tinham alertado sobre esse impacto, o que resultou na mudança de procedimentos das polícias da região que passaram a cobrir cadáveres e cercear ao máximo a presença de crianças nos locais de crimes violentos.
Podemos imaginar o monumental estrago em localidades, como no Rio de Janeiro, com crianças submetidas a cenas repetidas de violência, da entrada frequente de operações policiais arrastando cadáveres deixando rastros de sangue em suas comunidades. Ou quando precisam se agachar com suas professoras para se proteger dos frequentes tiroteios. O efeito é o mesmo, quer os tiros sejam dos bandidos ou dos policiais. Quantos milhares de jovens tiveram, entre os efeitos do estresse da violência, reduzidas sua capacidade de aprender, de viver uma vida física e psicologicamente saudável? Para Sharkey essa mutilação mental tem custo social muito superior às perdas de vidas pela violência. Quando se fala em pacificação dessas áreas não se deve se entender apenas como menos mortes, mas menos sequelas aos jovens sobreviventes.
Quando a violência abaixa, muitas vezes pela presença maciça e constante da polícia, ao invés das operações esporádicas – uma estratégia evidentemente fracassada – pode se inaugurar um período de paz a ser mantido, geralmente com menos esforço policial. Quando bairros periféricos da capital paulista reduziram quase 90% dos assassinatos em 20 anos, foram poupadas mais que vidas, mas também reduzidos traumas e estímulos a condutas violentas para incontáveis crianças e jovens com a cara do Brasil.