Entre grandes prédios e o brado à modernização, vestígios históricos de um período muitas vezes esquecido resistem em São José dos Campos. De forma discreta, eles se preservam como páginas de uma trajetória que requer a lembrança do passado para ser escrita no presente e encarada no futuro.
Diferentemente de outras cidades da região, São José teve seu centro histórico menos preservado, em consequência de uma ideia de desenvolvimento que buscava traçar uma nova identidade para o município.
Segundo Valéria Zanetti, doutora em História Social e professora pesquisadora da Univap (Universidade do Vale do Paraíba), a mudança teve origem política.
“Por conta da imagem que se quer de São José muito moderna, ligada à industrialização, desenvolvida, tecnológica, houve na década de 50, por meio de um discurso de um vereador, uma tentativa de apagar a história de São José ligada à doença da tuberculose. Com a chegada do CTA [Centro Tecnológico Aeroespacial], da Rodovia Dutra, das indústrias, começou a se configurar uma outra identidade e essa identidade tinha que se sobrepor à identidade de estância climática”, explicou. “Houve um processo deliberado de apagamento, muitos prédios vinculados a instalações de tratamento, estabelecimentos de cura, foram destruídos da noite para o dia. Com essa concepção, muitas das nossas memórias históricas foram demolidas para dar vazão aos novos planos, aos novos projetos”, continuou a pesquisadora, que destacou um tabu relacionado ao período sanatorial.
ESPAÇOS.
Dentre os vestígios de maior destaque, o coordenador do curso de Arquitetura e Urbanismo da Univap, Fábio de Almeida, destaca os edifícios de função pública, como a antiga Câmara Municipal, o antigo Fórum, o antigo Theatro São José (hoje Biblioteca Cassiano Ricardo) e o Mercado Municipal. O arquiteto destaca ainda a arquitetura religiosa, presente em prédios como o da Igreja Matriz, Capela de São Miguel , Capela Nossa Senhora Conceição Aparecida e a Igreja de São Benedito, considerada um dos imóveis mais antigos da cidade.
“Dos bens preservados um dos mais significativos é a Igreja de São Benedito que teve sua construção iniciada no final do século 19, passando por intervenções e ampliações até adquirir sua conformação original em meados do século 20, sendo inclusive a matriz provisória por alguns anos da década de 1930, durante a construção da nova Igreja Matriz de São José”, explicou o arquiteto.
Dentre os demais locais significativos, ele destaca a arquitetura sanatorial (Vicentina Aranha, Vila Samaritana, Maria Imaculada, Antoninho da Rocha Marmo), industrial (Tecelagem paraíba e Cerâmica Weiss), além de espaços públicos como as praças centrais e o patrimônio ambiental, como os próprios parques Roberto Burle Marx, Vicentina Aranha e o Banhado. Fora do centro, as estações ferroviárias também tiveram sua contribuição.
LINHA DO TEMPO.
Para o arquiteto, o acervo arquitetônico auxilia na compreensão linear da transformação do espaço da cidade, que carrega pouca preservação das arquiteturas colonial e rural, traz a arquitetura neocolonial nos bairros Vila Maria e Santana, um exercício do ecletismo nos edifícios públicos, alguns exemplares do Art Decó, como no Antigo Fórum e o Cinema Paratodos, ensaio para o passo seguinte na arquitetura modernista, que é protagonista no CTA, com a atuação de Oscar Niemeyer e no Parque da Cidade, com Rino Levi e o paisagista Roberto Burle Marx.
“Percebe-se claramente que partir da fase sanatorial no início do século 20, a cidade passa por uma forte transformação nos padrões construtivos e urbanísticos, que foram definidores dos rumos do nosso desenvolvimento, pois a com a melhoria de infraestrutura urbana, abrimos caminho para implantação do CTA e por consequência o desenvolvimento de um parque industrial e tecnológico que definiram uma nova fisionomia urbana”, explicou.
HISTÓRIA.
A fase sanatorial, um dos principais marcos da história de São José dos Campos, foi o período que permitiu o início de uma movimentação mais consistente da economia local. Foi pela doença que pessoas migraram em busca das instalações de saúde do município e aqui permaneceram, em época que a cidade chegou a ser considerada pelo Estado como Estância Climática e Hidromineral. O título foi acompanhado de uma cobrança de normalização das condutas da cidade em relação à doença e ao doente.
Com isso, a partir da condição sanatorial, passou a haver uma segregação na cidade entre doentes e não doentes, com expulsão dos pobres do centro da cidade, sob a justificativa de higienização e alargamento das avenidas para darem vazão ao ar e torná-lo salubre. No mesmo contexto, o primeiro zoneamento da cidade foi realizado e São José passou a receber investimentos a criar bases de infraestrutura que possibilitaram o início do processo de industrialização, que teve ao menos mais outras duas fases, sendo uma das mais significativas identificadas na década de 1950, com novidades que garantiram impulso a indústrias, como a Via Dutra, o CTA, o ITA (Instituto Tecnológico de Aeronáutica) e o Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais).