Centro do mito sobre a primeira mulher criada por Zeus, a caixa de Pandora é uma história conhecida até hoje. Segundo a mitologia, o deus supremo do panteão helênico entregou a caixa para Pandora, antes que ela fosse enviada à Terra, e recomendou que ela não fosse aberta, pois os deuses tinham armazenado nela todos os males do mundo -- doenças, guerra, mentira, ódio, etc -- e um único dom: a esperança. Mas, já em solo terrestre, sem conter a curiosidade, Pandora abriu a caixa e todos os males escaparam. Ela ainda tentou fechar a tampa, mas manteve aprisionada na caixa apenas a esperança.
E a caixa de Pandora voltou à baila, agora no Brasil. "A CPI da Pandemia abriu a caixa de Pandora! Estão emergindo todos os esquemas do governo federal na compra de vacinas", afirmou o senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP), que é vice-presidente da comissão que investiga a tragédia da Covid-19 no país.
A afirmação foi dita após a descoberta de que o general Eduardo Pazuello, ex-ministro da Saúde, fora de sua agenda, negociou a compra de 30 milhões de doses da Coronavac e pelo triplo do valor do Instituto Butantan.
A cada capítulo, a CPI evidencia que, ao custo imensurável de centenas de milhares de vidas (são 539 mil mortes, das quais 400 mil poderiam ter sido salvas com a antecipação da chegada das vacinas), o governo Bolsonaro não trata-se "apenas" de um desgoverno absolutamente autoritário, incompetente e negacionista.
É suspeito de corrupção, minando o último (e vazio) argumento de que o presidente, PhD na arte da rachadinha, era honesto. Crer nisso inaugura uma cega espécie de terraplanismo político.
Chamado de mito por apoiadores, a cada dia menos numerosos, Bolsonaro, traçando um paralelo com a mitologia grega, não é Pandora, mas a personificação daquilo que escapou da caixa. Que não escape da Justiça -- dos homens e da história. A esperança -- aquela ainda na caixa -- é que o julgamento seja célere e rigoroso.