"Uma errata histórica feita para impedir que o racismo na literatura seja perpetuado". Uma forma de "encorajar novos escritores negros". Esse é o objetivo da campanha "Machado de Assis Real", que defende que aquele que é considerado um dos maiores escritores brasileiros, seja retratado tal como ele era: negro.
Mais: que editoras e livrarias deixem de imprimir, publicar e comercializar livros em que o escritor apareça embranquecido e, sim, substitua a imagem carregada de preconceitos pela sua imagem real.
"A retratação da imagem real do autor tem um valor histórico e político incomensurável e mesmo libertador. Ela permite e realiza o conhecimento sobre a veracidade da filiação e pertencimento do personagem e, com isso, dá visibilidade, ilumina e faz conhecer a todos que umas das maiores personalidades da história da Literatura Brasileira é um negro, cujo passado, trajetória de luta, superação e resiliência, se assemelha a maioria dos negros do país", afirmou José Vicente, reitor da Faculdade Zumbi dos Palmares, de São Paulo, autora da campanha.
O projeto foi realizado em conjunto com a agência de publicidade Grey Brasil. E, já alcançou grandes feitos: a nova imagem do autor foi entregue e colocada na Academia Brasileira de Letras, fundada, aliás, por Machado, em 1897.
ERRATA HISTÓRICA.
A discussão sobre o embranquecimento de Machado de Assis foi intensificada em 2018, quando o pesquisador Felipe Pereira Rissato descobriu a última foto do autor em vida. A imagem foi estampada na revista argentina "Caras y Caretas", em 1908, ano da morte do autor.
A ideia da campanha ''Machado de Assis Real'', surgiu de uma inquietação com a questão do embranquecimento, comum na época, pois em um contexto social de preconceito racial, a figura de poder e respeito não poderia ser representada por negros.
"O embranquecimento aconteceu, na verdade, com diversos autores, porque no contexto da época não era socialmente aceitável. Uma figura de respeito e autoridade não poderia ser representada por uma pessoa negra", ressaltou José Vicente.
A imagem foi reconstruída tendo como base pesquisas realizadas em registros fotográficos históricos, que validam o fato de Assis era filho de pai e mãe negros, bem como suas características físicas.
"É como se tivessem resgatado Machado de Assis e o entregassem a população brasileira, principalmente para a população negra", afirmou Vagner Malê, publisher da editora Malê, responsável pelo primeiro livro no mercado com a nova imagem machadiana: "Machado de Assis: contos e crônicas", coletânea com os contos mais populares do autor e com os textos (contos e crônicas) em que a questão racial aparece em sua obra. "O livro é uma ótima oportunidade de apresentar o Machado de Assis real para as presentes e futuras gerações de leitores brasileiros", diz material de divulgação em rede social.
LEITURAS.
Para Solange Barbosa, coordenadora do Centro Cultural Afro Brasileiro e Biblioteca Zumbi dos Palmares, de Taubaté, a campanha é importante a medida em que coloca Machado em seu devido lugar.
"É importante que haja esse reconhecimento para que mostre às pessoas a qualidade de ser negro. Uma pessoa negra pode ser boa em qualquer área que quiser", afirmou ela, que iniciou na biblioteca uma campanha para que todos leiam ou releiam Machado de Assis. "Que essa seja ainda uma oportunidade para que os jovens o conheçam".
Ainda segundo ela, Assis foi vítima de um racismo institucional. "Negritude no Brasil era sinônimo de escravo, que significa não ter sabedoria, qualidade, de mão-de-obra barata sem especialização. O que é mentira. Mas como, nesse contexto, o Estado falaria que o maior autor da época era negro?", questionou.
Para ela, além de Machado de Assis, precisamos redescobrir Lima Barreto, Cruz e Souza, Mario de Andrade - todos negros. "Entre as mulheres, tivemos aqui no Vale do Paraíba Ruth Guimarães, uma mulher que, quando lançou 'Água Funda' foi equiparada a Guimarães Rosa", afirmou a professora.
Há ainda Conceição Evaristo, Maria Firmino, Carolina de Jesus... "Carolina foi enterrada nesse lugar de favelada que escreve. Quando na verdade, ela era uma escritora que morava na favela. É preciso mudar a leitura que é feita", continuou.
Serviço.
Para acessar o site da campanha e baixar as imagens de Machado de Assis, acesse: machadodeassisreal.com.br..