A Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) batizou o prédio principal da sua Faculdade de Educação - uma das mais conceituadas do país - com o nome de Paulo Freire (1921-1997), educador que nos últimos anos vem sofrendo série de críticas de grupos conservadores. O próprio presidente da República, Jair Bolsonaro (PSL), afirmou em campanha querer "expurgar Freire das escolas brasileiras".
Freire foi professor da universidade por dez anos e a iniciativa de homenageá-lo partiu de alunos do mestrado e contou com o aval de 800 assinantes, entre docentes, estudantes e funcionários.
Paulo Freire é também o patrono da educação brasileira, título concedido em 2012, por meio da lei º 12612. Aliás, no início do mês de abril, a deputada Caroline de Toni (PSL-SC) e o deputado Heitor Freire (PSL-CE) chegaram a apresentar à Câmara dos Deputados uma proposição para a revogação de tal lei.
"Paulo Freire não nos representa", afirmou ela em vídeo publicado no Twitter. Na justificativa do projeto, Caroline afirma que Paulo Freire "discutiu formação política e relegou a segundo plano os verdadeiros desafios da educação" e que o educador "pouco se dedicou a analisar e oferecer caminhos aos docentes sobre recursos de ciência pedagógica".
Já o deputado diz também em seu projeto que Freire instituiu um "método marxista crítico" quando introduziu o modelo em que o aluno "quebra a posição superior do mestre", "insurgindo-se contra aquele que detém o conhecimento". Para ele, deve-se evitar "a celebração daqueles que incentivam à balbúrdia e a insubordinação".
Abraham Weintraub, atual ministro da Educação, também levantou a bola. "Será que Paulo Freire é o melhor que tem no mundo? Que eu saiba, ele não foi copiado no mundo", afirmou durante diálogo com docentes que venceram o prêmio Professores do Brasil do ano passado. O encontro ocorreu no último dia 25. E, dos 30 professores presentes, oito levaram livros de Freire e alguns os ergueram durante foto ao lado do ministro numa manifestação silenciosa.
"Ela tem o direito de dizer 'Viva Paulo Freire'. Eu também tenho o direito de dizer que o único lugar que o segue é o Brasil. Quando você tem uma pesquisa que é boa, um antibiótico, uma aspirina ou um avião, os outros tendem a copiar. Ninguém quis copiar Paulo Freire e os nossos resultados são ruins", declarou ao jornal "O Estado de S.Paulo".
Mas, afinal, quem foi Paulo Freire?
Paulo Freire é o intelectual brasileiro mais reconhecido no mundo. Seu livro “Pedagogia do Oprimido” está entre as 100 obras mais citadas em língua inglesa, segundo dados do Google Scholar, com mais de 72 mil citações. Freire é mais citado que pensadores como Michel Foucault (60.700) e Karl Marx (40.237).
Nascido em Recife (PE), em 1921, Freire despontou como referência na educação popular na década de 1960, quando desenvolveu um método de alfabetização de adultos em Angicos, município do Rio Grande do Norte. Na ocasião, ele ensinou 300 alunos a ler e a escrever em 45 dias. O feito gerou novas oportunidades de emprego e deu aos trabalhadores o poder de voto, bem como lhes ensinou sobre direitos trabalhistas.
Em resposta ao eficaz resultado, João Goulart, então presidente do país, aprovou a multiplicação da experiência num Plano Nacional de Alfabetização - que nunca saiu do papel. Em 1964, o Golpe Militar extinguiu todo o esforço colocado no projeto. Freire foi encarcerado e, na sequência, partiu para o exílio.
“Um dos maiores responsáveis pela subversão imediata dos menos favorecidos”, dizia texto do inquérito divulgado na ocasião. A frase nos dá a dimensão do quanto seu trabalho gerava incômodo. “Freire é o maior educador brasileiro e talvez o maior do mundo ocidental nos últimos tempos. Ele tem uma proposta muito clara em termos de educação: educar as classes oprimidas não a partir dos valores da classe opressora, mas, sim, da própria vivência da classe oprimida”, explicou Luiza Arieta, coordenadora do ensino médio do CEAT (Centro Educacional Anísio Teixeira).
O educador era contra o que chamava de “educação bancária”, que colocava o professor como detentor do conhecimento e o aluno apenas como “depósito”. Para ele, para ensinar era preciso partir da experiencia do aluno e do que ele conhecia como experiência de vida. “Não adianta ter uma cartilha de ‘Vovô viu a uva’. A alfabetização deve ser feita a partir de seus próprios conhecimentos, vivências e do seu próprio saber. Com isso, as experiências que foram desenvolvidas por Freire e seus seguidores permitiram a alfabetização de um grande número de pessoas em prazos inacreditáveis: 40 dias, dois meses...”, continuou ela.
Ser aliado das classes oprimidas, segundo a professora, virou sinônimo de ser comunista, como já comprovou até mesmo o Papa Francisco - que recentemente criticou abertamente o livre mercado. “Freire é amado por todos os que compartilham de uma proposta humanista e é odiado por aqueles que têm o interesse de cristalizar ainda mais uma sociedade de classes, oprimindo as classes populares”, concluiu.
Motivo de discórdia.
Segundo a ONG Repórter Brasil, a metodologia de Freire foi considerada subversiva pelos militares justamente por trazer palavras que faziam parte do cotidiano dos alunos. Por exemplo: ‘tijolo’. A professora perguntava quem sabia fazer, quanto vendia, quem comprava, de quem era o lucro maior (do proprietário ou do trabalhador).
“Chamavam isso de aula de politização”, lembrou a ex-aluna Maria Eneide de Araújo Melo em entrevista a
ONG. Os alunos, claro, eram incentivados a ler a CLT (Consolidação das Leis do Trabalho). “Eles passaram a reivindicar direitos. A carteira assinada os entusiasmava”, contou também à ONG a juíza aposentada Valquíria Félix da Silva, 78, que foi uma das professoras do curso na cidade. Depois do curso, uma greve na cidade parou a construção de uma obra.
Reconhecimento.
Para Márcia Feijó, mestre em educação pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e professora
do CEAT (Centro Educacional Anísio Teixeira), amar ou odiar Freire não são boas opções. A questão é admitir
o seu legado e entender que, sim, ele é um dos educadores mais reconhecidos internacionalmente.
“Qualquer coisa que se volte a diminuir a desigualdade social torna-se motivo de discórdia nessa sociedade.
Por isso, ele foi considerado um grande comunista”, afirmou. “As classes dominantes nunca suportaram essa autonomia que ele entregava em pouco tempo para uma classe que podia se rebelar contra a hegemonia do campo econômico e social”.
“Ele tem reconhecimento internacional como um dos maiores educadores do mundo. Não cabe amar ou detestar. É o reconhecimento que faz dele uma pessoa importante no campo da educação”, disse.
Em tempo, enquanto a bandeira de Freire é combatida, 13 milhões de jovens e adultos com mais de 15 anos no país ainda não sabem ler e escrever, segundo dados da Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura), de 2017. O Brasil figura em oitavo na lista dos países com mais analfabetos no mundo.