Renata Veneziane

Palavras não ditas

Por Renata Veneziane, mãe da Sofia e dos gêmeos José e João, autora do livro 'Quando acordei mãe' |
| Tempo de leitura: 3 min

Levantou e tomou café. Trocou de roupa e saiu. Dessa vez a maquiagem não foi mexida. Nem base. Nem batom. O brinco parecia esquecido no criado-mudo. Não dava para saber se foi intencionalmente.

Na hora do almoço, não houve comentário da falta do brilho nos olhos e nos lábios. Cada um estava em seu mundo. E assim foram os dias. Sem maquiagem. Sem brinco. Sem conversa. Parecia que ninguém notava. Era mais fácil fingir que a vida andava acelerada. Autocuidado era para quem podia se dar ao luxo de parar e olhar no espelho.

Um dia o silêncio foi rompido. A caçula estava maquiada. E aquilo incomodou. “Como podia com pouca idade já parecer adulta? Quem a deixou mexer na gaveta da mamãe? ” - perguntavam os irmãos mais velhos. O pai estava desconcertado. A filha, que estava sorrindo, percebeu como sua brincadeira causou aborrecimento e começou a chorar. Borrando todas as cores escolhidas ao longo da tarde. 

- Mamãe, desculpa. Mexi nas suas coisas, porque queria ser você. Sempre a achei linda com as sombras e os brilhos.

Era tudo o que ela não queria ouvir. Finalmente precisaria encará-los e dizer como a maquiagem não tinha mais sentido. Não queria mais se esconder entre sombras e brilhos. O pai não sabia se acolhia a filha ou a mandava lavar o rosto. Os meninos perceberam o incômodo dos pais. Depois daqueles longos segundos em silêncio, com os olhares se desviando, a mãe abraçou a filha. 

- Maquiar é divertido, mas nunca deve ser usada para copiar outra pessoa ou se esconder. 

Mesmo sem alcançar a profundidade das palavras, a menina entendeu que a mãe não tinha ficado brava e parou de chorar. O pai permanecia imóvel. Tinha medo de perguntar sobre a mudança da mulher. Os meninos saíram da sala. A mãe continuava com a filha enquanto fitava o marido para dizer com os olhos o que a boca não podia.

- Filha, lave o rosto. Pode se maquiar de novo. Faça sua escolha de brilho e cores.

O homem estava com a boca seca. Não sabia se permanecia ou saía quando ouviu a pergunta:

- Qual mulher você prefere: a cheia de brilhos ou a de cara lavada?

As palavras fugiam, mas sabia que precisava responder. Não dava mais para ignorar a mudança dos últimos meses. 

- Prefiro a mulher que tem coragem de me perguntar isso. 

- E por que você deixou o tempo passar sem comentar?

- Tive medo que partisse deixando a maquiagem como lembrança de uma mulher exuberante, mas infeliz.

- Eu esperei todos os dias o seu elogio do meu rosto lavado. Mas não vinha como idealizei. Também não tinha crítica. Tive medo de nos perdermos. Pensei em partir. Precisava me resgatar ao invés de viver quem gostaria de ser sem nunca conseguir.

- Você é a mulher mais incrível que conheço. Seus olhos não precisam de sombra para brilhar. Nem os lábios de cores para dizer aquilo que preciso escutar. Prometo perguntar sobre você. Enxergá-la por inteiro.

    Depois de um longo abraço, ela foi para o quarto se maquiar. Junto com a filha. Olhou no espelho e sabia quem era. A maquiagem serviria para realçar o seu brilho. Do autocuidado. Mas sem a obrigação de estar impecável todos os dias. Isso não cabia mais no estojo da sua vida.

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