Acostumados a tutoriais de maquiagem, os mais de 2,5 milhões de seguidores da youtuber Karen Bachini receberam de repente vídeos de uma paradisíaca ilha virtual. Em plena pandemia, aconteceu por lá um bafônico desfile de drag queens, com participante sem roupa, fotos indiscretas e looks arrasadores do gótico-coronavírus à bailarina punk.
Karen Land, o local do desfile, não está em Nova Friburgo, onde Bachini nasceu, nem em São Paulo, onde mora. O evento aconteceu no game "Animal Crossing: New Horizon". Lançado para o console Switch, ele virou fenômeno mundial, um bem-vindo alento para esta época de recolhimento.
No Japão, terra da Nintendo, a desenvolvedora do game, foram comercializadas 2,6 milhões de cópias físicas em dez dias, superando títulos famosos como "Super Smash Bros. Ultimate" e "Pokémon Sword / Shield", segundo a revista "Famitsu". Ainda não há dados sobre vendas digitais ou em outros países, mas analistas apontam que o jogo é um dos responsáveis pela escassez mundial de Switch e preveem números robustos no próximo balancete da firma.
No game, cada jogador cria um personagem e ganha uma ilha para desenvolver à sua maneira. Por lá vivem animais antropomorfizados, como a coruja museóloga Blathers e o guaxinim Tom Nook, um indisfarçável capitalista que incentiva o desenvolvimento por meio de crédito farto e acessível. Sem pânico, não há boleto, juros ou prazo para o pagamento.
Uma característica de "Animal Crossing" é que o calendário e o relógio são os mesmos do mundo real. Certas tarefas pedem tempo. Uma árvore pode levar alguns dias para crescer — rápido se comparado à realidade, demorado para o imediatismo da maioria dos jogos. No começo da jornada, quase não há o que fazer a não ser se familiarizar com as regras e elementos ao redor. É preciso esperar, o jogo abre suas possibilidades com parcimônia, não há um comando mirabolante a ser feito.
Frustração baixíssimaCom jogabilidade simples, sem exigência de reflexos apurados, é possível desfrutar de atividades como pesca, jardinagem e caça a presentes voadores que surgem na ilha de vez em quando.
O primeiro "Animal Crossing" foi lançado há quase duas décadas para o aposentado Nintendo 64. Ao invés do típico começo, meio e fim, ele não obriga o jogador a seguir um objetivo. Cada um se relaciona à sua maneira. O jogo não pune erros, sem a temida tela de "game over". Para Gustavo Henrique dos Santos, isso explica a razão do impacto na pandemia.
— O nível de frustração em "Animal Crossing" é baixíssimo — diz Santos, que administra um grupo no Telegram com 249 jogadores. — Com o isolamento social, o jogo traz relaxamento, calma, além de fomentar amizades.
Via internet, é possível visitar a ilha de outros jogadores. Cada lugar é diferente, mantendo em comum o aspecto fofinho ou, como dizem os japoneses, kawaii. A estética é chibi, usada em mangás e animes para desenhar personagens de cabeça grande e corpo pequeno — mais ou menos como os bonecos funko.
Não se engane pela aparente simplicidade, há em "Animal Crossing" editores de decoração e estilo. O tradutor Danilo Venturini, de 31 anos, por exemplo, criou o vestido da Chiquinha, de "Chaves", e o calçadão de Copacabana.
— "Animal Crossing" estimula muito a criatividade, tem opções de personalização e eu me amarro nesse tipo de coisa — afirma Venturini, que disponibilizou no Twitter o código para qualquer um adotar suas reproduções. — Entro diariamente, traz um conforto bom.
O quadrinista potiguar Aureliano Medeiros tem uma visão diferente. Para ele, que abandonou o jogo depois de poucas horas, o reforço positivo constante incomoda:
— É uma realidade esquisita, você junta meia dúzia de gravetos e faz uma vara de pescar. É um universo que não descansa, acontece em paralelo, parece o "BBB".
Arte e política"Animal Crossing" permite que os usuários se expressem com arte. Com uma série de eventos cancelados, a artista malaia Shing Yin Khor resolveu fazer paródias de obras do mundo real. Em sua ilha é possível ver uma reinterpretação da landart "Spiral Jetty", de Robert Smithson, ou a performance "A artista está presente", de Marina Abramovic. O museu de arte de Cincinnati, nos EUA, também resolveu entrar na onda e lançou códigos que permitem aos jogadores personalizarem as casas com obras de seu acervo.
Em uma conexão mais nervosa com o mundo real, ativistas pró-democracia em Hong Kong aproveitaram para realizar atos e decorações críticas ao governo da China, o que levou o jogo a desaparecer das lojas virtuais no país. O movimento possibilitou ao primeiro-ministro de Taiwan, Su Tseng-chang, a marcar posição contrária.
"Taiwan não vai censurar um jogo em que você pega galhos e cultiva nabos. Jogadores, fiquem à vontade para fazer piadas com o governo", escreveu Tseng-chang no Facebook.
Taiwan está politicamente separada da China há décadas. Pequim a considera uma província rebelde. Nem mesmo uma relaxante ilha paradisíaca virtual consegue amainar a tensa geopolítica da região.