O vereador Neneca (PDT) foi ‘traído’ por um dos microfones da Câmara de Taubaté, que captou um desabafo feito por ele durante a última sessão realizada pela Casa.
O fato ocorreu no dia 26 de março, mas o deslize só foi percebido essa semana, 10 dias depois.
Ao todo, foram dois ‘áudios vazados’. O primeiro ocorreu quando a vereadora Loreny (Cidadania) subiu à tribuna. Aparentemente, em vez do áudio da tribuna ser aberto, foi liberado o áudio do microfone de Neneca, que estava em sua cadeira.
“Vou doar 100% do meu salário por dois meses, se foda. Já ‘tô’ fodido mesmo, vou arregaçar hoje. Vou meter uma ‘live’. É para fazer campanha publicitária? Vou fazer então”, disse. Nesse primeiro momento, não é possível identificar com quem Neneca conversava.
O segundo ‘áudio vazado’ ocorreu após o fim da fala de Loreny. Nesse momento, Neneca se dirigia à Mesa, onde estavam os vereadores Dentinho (PSL), Douglas Carbonne (DEM), que é o líder do prefeito Ortiz Junior (PSDB) na Câmara, e Boanerge dos Santos (PTB), que preside da Casa. Aparentemente, nenhum deles respondeu.
“Se for para levar a ferro e fogo, se tiver união [dos vereadores], tem que falar para ele [Ortiz]: ‘manda os caras embora’. Tem cabide de emprego lá [na prefeitura]”, disse. “Manda os caras embora, os cabides de emprego, têm um monte de gente, tem mais de 400, 500”, afirmou Neneca.
REPERCUSSÃO.
Procurado pela reportagem nessa segunda-feira (6), Neneca se disse arrependido pelo desabafo e pelos termos usados. “Eu queria me retratar, pedir desculpas”.
Segundo o vereador, o desabafo teve como origem a notícia de que, para concentrar esforços financeiros no combate ao novo coronavírus, Ortiz iria cortar em 50% o próprio salário e em 20% o salário dos comissionados da prefeitura.
Neneca disse que, antes da sessão da Câmara, os vereadores discutiram reduzir também os próprios salários, mas não houve consenso sobre a proposta e nem sobre o percentual do corte, caso fosse aplicado.
Na reunião, Neneca disse ter defendido corte de pelo menos 50% no salário dos vereadores. Segundo ele, o primeiro desabafo foi nesse sentido: dizer que abriria mão do salário integral, para buscar adesão de outros parlamentares. “A fala foi para os vereadores: ‘se vocês não querem, eu vou fazer isso’. Se o [Poder] Executivo está mostrando o caminho e está fazendo o desconto, não deveria nem ter discussão [na Câmara], deveríamos fazer”, disse ao jornal. “Dia 25 [de abril, dia do pagamento na Câmara], vou fazer doação do meu salário. Vou manter minha palavra. Não quero ‘live’, não quero ‘like’, mas vou doar meu salário 100%”, completou Neneca, que disse estudar apenas uma forma de doar o salário sem que seja configurada alguma infração às regras eleitorais – uma eventual compra de votos, por exemplo.
Sobre a segunda fala, relacionada à prefeitura, Neneca disse que estava defendendo que Ortiz acelerasse a exoneração dos servidores comissionados que irão ser candidatos a vereador em outubro – por lei, eles precisam deixar o cargo três meses antes da eleição. “Não foi nada pessoal, estava falando de quem vai ser candidato”, alegou. “O que falei foi sem maldade, foi do coração. Fui comerciante por 15 anos, sei que eles [empresários] estão cheios de boletos para pagar. Por isso, precisamos todos fazer nossa parte”.
Confira o vídeo da sessão de 26/03. O primeiro 'áudio vazado' de Neneca pode ser conferido entre 4m15s e 4m30s. O segundo, entre 9m13s e 9m54s.