Completando 40 anos de profissão e perto de chegar aos 60 anos de idade, ela estava de saco cheio. Já não suportava mais ser submissa ao marido, ao salário, ao governo e aos costumes vigentes. E, durante o período de abertura política do país, aceitou o risco de perder tudo o que conquistou dando um basta naquilo que lhe tirava a paz.
O que mais queria era ser ela mesma na frente das câmeras, dona de sua voz, única autora de sua própria história.
Assim é a Hebe Camargo retratada em "Hebe - A Estrela do Brasil", um dos longas nacionais mais aguardados do ano, cuja estreia ocorreu em agosto nos cinemas.
A apresentadora, natural de Taubaté, marcou época com seu carisma, estilo e opinião, tornando-se uma das apresentadoras de maior audiência no país.
"Eu não sabia nada e descobri tudo por causa do filme", contou Andréa Beltrão, atriz que dá voz a Hebe nos cinemas, em vídeo promocional. "Mergulhei numa pesquisa enorme. Vi muitas horas de materiais sobre ela na internet e fui montando meu quebra-cabeça", continuou. "Ela veio de uma família pobre, tinha vários irmãos e sua mãe era uma mulher tradicional. Mas seu pai não. Artista, ele era livre, tinha uma cabeça maravilhosa e ajudou muito a Hebe".
O músico Fêgo Camargo, aliás, foi um dos motivos pelo qual a apresentadora foi embora de Taubaté na década de 1940 para nunca mais voltar.
Segundo o biógrafo Artur Xexéo, autor de "Hebe, a Biografia" (ed. Best Seller), certa vez, a Prefeitura lançou um livro sobre a cidade e a artista se ressentiu de não ter na obra referência a seu pai.
A cidade se redimiu antes da morte da apresentadora, em 2012. Desde 1967 conta com a escola municipal de artes Maestro Fêgo Camargo, fundada por um grupo de músicos.
personalidade.
Segundo a roteirista Carolina Kotscho, foi um desafio escolher um recorte da história de Hebe para o filme. "Esse é sempre o desafio de biografias: contar uma vida de 82 anos em duas horas. Mas é nesse recorte que está a essência dela. É quando ocorre a tomada de consciência e ruptura na sua trajetória tanto na vida pessoal quanto na profissional", afirmou ela.
Para Maurício Farias, diretor do longa, Hebe teve como trunfo ter capturado desde o primeiro momento a simpatia do público. E, apesar das críticas no início de carreira, ela nunca perdeu o lugar que a identificava como uma pessoa generosa, modesta, humilde, simples, verdadeira, espontânea e inteligente.
"Ela se tornou uma grande comunicadora por qualidades que tinha, como a forma contagiante de ver a vida. Ela passava uma verdade no que falava e é com esse conhecimento adquirido ao longo da vida, que ela conseguiu se transformar em unanimidade"..