O Sítio do Picapau Amarelo já não é mais o mesmo... Ao menos para parte do setor literário. Desde que entrou em domínio público em janeiro deste ano, a obra de Monteiro Lobato ganhou tantas versões quanto o mercado comportou nesses quase 12 meses.
Enquanto algumas editoras apostaram em usar notas explicativas a partir do texto original, outras optaram por limar da obra do autor trechos considerados racistas ou mesmo atualizar a linguagem trazendo elementos da vida atual para a narrativa.
Entre os trabalhos recém-lançados, destacam-se os livros da Cia. das Letrinhas, que apostou em edições acompanhadas por texto introdutório que explica o contexto cultural da época de publicação do livro e debate as questões polêmicas relacionadas à obra de Lobato. As obras trazem também notas de rodapé em formato de diálogo entre as personagens, que explicam o vocabulário e os costumes do Brasil da década de 1920.
A FTD Educação foi pelo mesmo caminho. Seus lançamentos respeitaram os textos originais do autor. Todos os livros contam com materiais de apoio para pais e professores e um projeto pedagógico a ser desenvolvido, ao longo do ano, em sala de aula.
A Sesi-SP Editora também evitou desgastes e em sua coleção optou por manter os textos originais do autor e as questões polêmicas foram contextualizadas e explicadas.
Já a Girassol Brasil Edições trouxe para as livrarias um mix de personagens do sítio com a Turma da Mônica. "Há anos atrás me recusei a 'modernizar' as figuras dos personagens do sítio. Eu admirava tanto que achava uma heresia qualquer alteração. Hoje me sinto mais livre e preparado para contribuir para o reconhecimento da obra por novos leitores", comentou Mauricio de Sousa na ocasião do lançamento das obras. As obras da editora foram adaptadas por Regina Zilberman.
Mas nenhuma outra editora causou mais barulho do que a Moderna.Adaptadas por Pedro Bandeira e Walcyr Carrasco, as obras de Lobato ganharam novo vocabulário e trechos polêmicos foram suprimidos. "É preciso atualizar, adaptar e trazer modernidade. Eu ouvi meu mestre, Lobato. E fiz o que, penso, ele faria", disse Carrasco.
Fato é que muitas das iniciativas não agradaram admiradores da obra do autor taubateano. E o debate que ganhou corpo foi: quais os limites de uma adaptação?
Debates.
"Acho saudável os novos aproveitamentos e as adaptações de Lobato, considerando os atuais leitores e os potenciais (futuros) leitores", afirmou Luzimar Goulart Gouvêa, docente da Unitau (Universidade de Taubaté), estudioso da obra do taubateano.
"Claro, é preciso que haja sempre uma fidelidade ao espírito da obra, o que significa manter a obra infantil combativa, inteligente e provocadora. A linguagem que se empregar deve acompanhar esse espírito, de maneira atualizada, para uma melhor apreensão dos sentidos", ponderou. "Ético é creditar a quem de direito o seu discurso. É possível, inclusive, além da linguagem, manter os preconceitos, é claro, desde que problematizados, com contrapontos, com a historicização das mentalidades através dos tempos".
Para Ricardo Lobato, bisneto do escritor à frente do projeto "Viva Lobato", de resgate e perpetuação da obra de seu bisavô, toda adaptação é válida desde que se mantenha fiel ao texto. "Pode-se fazer uma nota explicativa sobre uma palavra que não é mais usada no nosso vocabulario, por exemplo. A ideia do domínio público é justamente popularizar as ideias daquele autor. Mas não podemos adulterar a obra. Isso nem é permitido pela Lei do Direito Autoral", afirmou.
"O texto original de qualquer autor não pode ser mexido. Ele tem o contexto da época, formou gerações, é consagrado. É um absurdo mexer na obra de quem quer que seja por qualquer motivo", cravou.
Segundo Ricardo, apesar de a obra estar em domínio público, a família segue como guardiã das memórias de Lobato. "Nós acompanhamos tudo o que sai sobre ele. Se acharmos que algum livro difamar a obra do meu bisavô, iremos interferir. Não podemos permitir"..