Brasil

REDUZIR O CRIME A QUALQUER CUSTO?

Por José Vicente da Silva FilhoCoronel reformado da Polícia Militar de São Paulo, ex-secretário nacional de segurança pública, sócio fundador e conselheiro do Ibrasjus (Instituto Brasileiro de Segurança Pública e Justiça) |
| Tempo de leitura: 2 min
Crimes. A menina Ágatha, de 8 anos, foi assassinada no Rio
Crimes. A menina Ágatha, de 8 anos, foi assassinada no Rio

A menina Ágatha de oito anos foi atingida mortalmente quando estava com familiares num bairro da cidade do Rio de Janeiro. Foi uma "bala perdida" quando havia policiais nas imediações. O governo do Estado disse que foi um lamentável caso isolado que se somou às mortes de outras quatro crianças por balas perdidas neste ano. Ocorre que a política de segurança do governo Witzel tem se caracterizado pelo confronto mostrado na frequência das operações em áreas onde atuam as principais facções de traficantes, produzindo altíssima taxa de letalidade, além das mortes causadas pelos criminosos.

De janeiro até agosto deste ano 1.249 pessoas morreram nesses confrontos gerados pelas operações. Uma a cada 33 prisões feitas pela polícia (em São Paulo ocorre uma morte a cada 282 prisões). Até que ponto a segurança de uma grande cidade ou de todo o Estado depende de suas forças especiais e de suas operações geradoras de seguidos confrontos que leva perigos aos moradores? Qual a conta aceitável: mil bandidos presos ou mortos compensariam uma criança atingida? Dez mil? O ex-secretário da segurança do Rio, Mariano Beltrame (governos Cabral e Pézão), disse que não se faz omeletes sem quebrar ovos, ao se referir aos efeitos colaterais das ações policiais. Então, Ágatha foi o ovo da vez na omelete da segurança?

A sucessão de operações, como prioridade estratégica na contenção dos crimes, é uma opção enganosa por vários motivos. Um erro é marcar lideranças criminosas a serem neutralizadas a qualquer custo, com prisão ou por confrontos letais. Lideranças são facilmente substituíveis e as ações mais eficientes de inteligência permitem afetar mais efetivamente grupos criminosos se interferirem na entrada e distribuição de drogas e armas e nos ganhos do crime. Outro erro é avaliar que agredindo lideranças e operadores do crime organizado se vai afetar os crimes em geral. Roubos em ônibus, ladrões que levam dezenas de veículos por dia no Estado, roubos de pedestres ou ao comércio pouco ou nada têm a ver com o crime organizado ou com os chefões das milícias. A proteção de moradores nas áreas de confronto fica vulnerável e não há cartilha que ensine a fugir das balas. O intenso ativismo das tropas acaba tendo resultados positivos na redução de alguns crimes, mas não há estrutura policial que suporte por muito tempo essa desgastante atividade, nem a sociedade vai tolerar a escalada das mortes nos confrontos policiais.

Em segurança pública não existe política ou operação a qualquer custo, se efeitos colaterais podem ser a vida e o bem-estar de inocentes. O papel primordial da polícia numa sociedade regida por direitos é a preservação de vidas, prioridade muito acima da prisão e mortes de bandidos. Princípios, inteligência, treinamento e competente supervisão devem objetivar risco mínimo a policiais e inocentes. Não é só uma questão de competência, mas também um desafio moral para governantes..

Comentários

Comentários