O Papa Francisco deu uns tapinhas de bronca no braço de uma fã. Depois se desculpou. Até o Papa, o infalível, deu sua canelada. O comando de reações instintivas é mais intenso do que julga a nossa vã racionalidade. Daniel Kahneman, prêmio Nobel de economia em 2002, trouxe interessantes análises sobre aspectos pouco racionais das pessoas para julgar, decidir e agir. Buscando evidências em conceitos e experimentos da psicologia ele observou que as pessoas operam com dois sistemas que vamos chamar aqui de Zé-1 e Zé-2. Você vê uma cara alegre e outro emburrado na festa e já julga o estado de ânimo delas. Fácil. Qual o resultado da multiplicação de 5 por 8? Fácil também. Dirigir até o trabalho, é rotina incorporada, também fácil. Este é o Zé-1 que costuma ser rápido, eficiente e está pilotando você no dia-a-dia, tomando decisões adaptativas a partir das informações que vão surgindo e do conjunto de experiências acumuladas. E a resposta para a multiplicação de 13 por 62? Não tão fácil, você vai ter que fuçar na sua caixa de ferramentas para não errar; aí entra em cena o Zé-2 que elabora de forma mais lenta, com mais análise e mais lógica. Por ser um tanto instintivo e intuitivo, é comum que o Zé-1 force decisões com poucas informações e em bases emocionais, por mera simpatia ou antipatia, ou faça julgamentos com preconceitos do momento (nordestino é isso, judeu é aquilo, petista é aquilo outro etc). A interação entre esses dois Zés é interessante. O trabalho do Zé-2 com estudos e apuro de informações ajuda a suprir o Zé-1 de novas decisões rápidas de melhor qualidade. Quando o Zé-2 é intensamente acionado costuma pedir alívio ao Zé-1.
O autocontrole realizado pelo Zé-2 é cansativo e a atividade racional continuada reduz o nível de glicose no sangue e isso afeta julgamentos e decisões colocadas no colo do Zé-1. Uma publicação científica relata um grupo de juízes israelenses que examinavam pedidos de liberdade condicional de presos (em média 35% de concessão do benefício) a concessão caía drasticamente chegando até a zero pouco antes do almoço, mas subia a 60% após as refeições. Ou seja, o Zé-1 gosta de doce, e é bom evitar as compras no supermercado na hora da fome ou vai sobrar salame, cerveja e chocolate.
O Ministro Paulo Guedes parece pura racionalidade, mas depois de desgastante debate na Câmara e reagindo a provocação, disse ao deputado Zeca Dirceu que tchutchuca era a mãe dele. O Zé-2 tem limites e quando esgotado chama a tropa de choque do Zé-1. Sucesso e boas relações que ajudam no processo de interações de melhor qualidade dependem de moderar a autoconfiança e vencer a chatice de duvidar das informações que despejam sobre nós e buscar dados confiáveis para julgamentos. Numa coisa Zé-1 e Zé-2 podem se entender: saber perdoar resolve muitos problemas..