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Reynaldo Gianecchini estreia 'Um Dia Muito Especial' em São José

Por Xandu Alves | São José dos Campos
| Tempo de leitura: 11 min
Divulgação
Reynaldo Gianecchini em ação na peça
Reynaldo Gianecchini em ação na peça

O Teatro Colinas, em São José dos Campos, recebe entre os dias 25 e 27 de setembro o espetáculo “Um Dia Muito Especial”, estrelado por Reynaldo Gianecchini, Maria Casadevall e Carolina Stofella.

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Ambientada na Roma de 1938, durante o regime fascista, a peça acompanha o encontro inesperado entre Antonietta, uma dona de casa e mãe de seis filhos, e Gabriele, um homem gay perseguido por sua orientação sexual.

Na história, enquanto Benito Mussolini e Adolf Hitler participam de uma grande parada, Antonietta permanece em casa, presa às tarefas domésticas.

O pássaro de estimação dela foge e vai parar na janela de Gabriele, dando início a uma aproximação entre duas pessoas que vivem realidades distintas, mas compartilham solidão, repressão e o desejo de serem livres. A partir desse encontro, nasce uma amizade marcada pela escuta e pela transformação.

Em entrevista ao OVALE, Gianecchini contou que pesquisas sobre a história da população LGBT e trabalhos anteriores com a temática ajudaram na construção de Gabriele.

Para o ator, a peça mantém forte conexão com o presente ao abordar a violência contra pessoas LGBT, a desigualdade enfrentada pelas mulheres e o machismo.

“A peça aborda muito a questão da empatia, nesse mundo polarizado que a gente vive muito hoje, onde as pessoas não se olham, não se escutam”, afirmou.

Segundo Gianecchini, a força da história está justamente no encontro entre personagens que poderiam se enxergar como adversários, mas conseguem estabelecer uma relação humana.

“Eles se olham, eles param para se escutar. E através do viés humano, a gente aprende que a gente pode transformar muito”, disse.

Com curta temporada em São José, o espetáculo propõe ao público uma reflexão sobre preconceito, acolhimento e a necessidade de garantir que cada pessoa possa existir plenamente e sem medo.

Leia a íntegra da entrevista do ator Reynaldo Gianecchini a OVALE.

 

Gabriele é um homem que enfrenta o preconceito por ser homossexual em uma Itália marcada pelo fascismo. Como você se preparou para interpretar um personagem que vive tantas limitações e, ao mesmo tempo, preserva seus sonhos e sua sensibilidade?

Olha, eu já venho fazendo pesquisa sobre a luta LGBT há um tempo, porque tenho feito algumas peças com essa temática, como A Herança e Priscilla, a Rainha do Deserto. Então, é um tema que tem me chamado muita atenção. No caso do Gabriele, ele é um homem gay na época do fascismo. E, claro, fazendo várias pesquisas, entendi que os homens gays foram os primeiros a serem mandados para o campo de concentração.

Enfim, tem toda uma história de horror e de muita dor por trás. Tenho por referência o filme no qual essa peça é baseada, Um Dia Inesquecível, feito com Marcello Mastroianni e Sophia Loren. Então, já tinha essa referência muito clara na minha cabeça desse personagem, de como ele é complexo, bonito e da luta dele.

E foi muito nas conversas com o nosso diretor, Alexandre Reinecke, com a Maria Casadevall, Carolina Stofella e com o nosso grupo que a gente fez, que a gente gostou muito de contar essa história, trazendo muitas referências e entendendo todas as camadas que a gente tinha que pôr ali no palco, tanto desse homem gay quanto dessa mulher invisibilizada, os dois muito oprimidos na época do fascismo.

 

A peça fala de preconceito, intolerância e aceitação em um contexto histórico específico, mas muitos desses temas continuam presentes atualmente. O que você acredita que o público pode reconhecer da realidade de hoje nessa história ambientada em 1938?

Essa história, que se passa em 1938, é ainda muito relevante. Os temas que ela aborda são os temas que a gente mais está discutindo no momento. A gente já falou aqui da condição do homem gay. Sabemos da luta LGBT num país onde ainda se mata muita gente LGBT.

Tem também essa mulher que, na época do fascismo, é invisibilizada. Antonietta é uma mulher que não tem direito nenhum, segue ali fazendo os mil afazeres domésticos, numa sociedade machista, onde o marido a trai, onde ela não tem voz nenhuma. E ela segue nesse sistema fascista, nesse regime, na verdade, sem opção, porque foi embutido nisso nela.

Então, a gente ainda precisa falar da condição da mulher, que ainda está lutando contra tanto feminicídio, enfim, toda a luta da mulher nesse mundo machista que a gente vive. A peça aborda muito a questão da empatia, nesse mundo polarizado em que a gente vive hoje, onde as pessoas não se olham, não se escutam, enxergam o outro diferente como uma ameaça.

Esses dois personagens são de espectros opostos do mesmo regime. Ela é uma mulher fascista, ele é um homem antifascista. Então, eles tinham tudo para se odiar, para se verem como ameaças, e eles não fazem isso. Eles se olham, param para se escutar. E, através do viés humano, a gente aprende que pode transformar muito.

Como esses personagens se transformaram? Abrindo a escuta, deixando de ser tão absolutos nas suas certezas, nos seus julgamentos, e passando a enxergar o ser humano e talvez repensando coisas.

É por isso que eles têm esse dia muito especial, porque esse dia fez eles transformarem a visão deles e ganharem uma força como seres humanos, num acolhimento. Eles têm ali um território seguro um no outro para viverem as catarses que têm que viver nesse dia.

Então, a peça aborda temas que são de absoluta necessidade no momento.

Claro que foi feito em 1938, quando era tudo muito mais difícil. Muita coisa já andou na consciência sobre esse sistema, sim, mas a pergunta é o quanto ainda não andou, o quanto ainda a gente precisa pôr luz sobre essas questões, sobre esses temas, e ainda falar para que todos possam simplesmente ser e existir sem perigo de vida e sendo plenamente, dentro do seu direito de existir.

 

O encontro entre Gabriele e Antonietta transforma a vida dos dois e nasce de uma situação aparentemente casual. O que mais te chama atenção nessa relação e no vínculo que os personagens constroem ao longo de um único dia?

Esses personagens, Gabriele e Antonietta, aparentemente comuns — ela é uma dona de casa, ele um radialista —, estão inseridos dentro de um contexto social e político, que é o fascismo.

Eu acho que, nos tempos atuais, é muito bonito a gente abrir o olhar para entender, pelo exemplo dos personagens, que pessoas comuns, como eu, como vocês que estão aí, como os personagens, podem realmente ser afetadas por um sistema que pode ser extremamente tóxico. Então, vale muito a reflexão.

Quais as decisões que a gente está tomando? Qual a visão que a gente está tendo sobre os assuntos sociopolíticos nos quais a gente está inserido, para que a gente não repita as situações, para que a gente não retroceda?

A gente está em ano de eleição, então, é muito importante que a gente tenha muita consciência do que a gente quer, do que a gente quer evitar, do que não quer perpetuar e do que quer daqui para frente: pessoas realmente possam ser livres e tenham seus direitos resguardados. Então, a peça, para mim, faz esse alerta muito grande pelo viés do lado humano, não tentando impor nada, nem sendo panfletária.

Ela acontece muito de forma leve, mas é um grande exemplo de como a gente pode transformar a nossa visão, a nossa vida, quando está mais atento, quando também para para sentir no coração o outro, olhar para o outro e entender que as situações não podem ser perpetuadas, sendo que a gente tem exemplos muito fortes na nossa história, como o fascismo, que é um regime que a gente não quer e não pode deixar que volte.

 

Gabriele está prestes a perder ainda mais a liberdade por causa de sua orientação sexual. Como foi trabalhar esse contraste entre a fragilidade do personagem diante da sociedade e a força que ele encontra na relação com Antonietta? Além disso, como foi para você encarnar o personagem em razão de você, como ator, ter entrado na consciência das pessoas como o protótipo do galã masculino?

Ambos os personagens estão muito frágeis, solitários. Ambos são muito oprimidos pelas vidas impostas a eles e descobrem um território seguro nesse encontro um do outro para poder viver as suas catarses. E, a partir daí, eles começam a se sentir mais fortes. Isso é muito bonito. Eles encontram força um no outro.

E conseguem transformar toda a visão que tinham e transformar em força própria. Isso é muito bonito.

Eu, como ator, vivendo esse personagem, como um cara que tem feito o galã, essa figura forte, masculina do melodrama, de novelas, me faz pensar muito, fazendo esse personagem, nessa performance do masculino que nos é exigida sempre. Isso é um tema que, para mim, é muito sensível e eu gosto muito de discutir sobre isso.

Essa é a sociedade que sempre exigiu essa performance masculina, que tem sempre nesse lugar duro, onde você não pode ser vulnerável, não pode ser sensível. Isso é extremamente tóxico. Tem sido tóxico para uma sociedade toda há anos.

Então, quando a gente pega um personagem dele, independentemente de a gente falar se ele é um homem gay ou hétero, o que me toca muito é falar sobre isso, sobre como devemos performar.

Existe um jeito certo de se performar para mostrar que você é masculino, um jeito certo de se vestir, de falar. Será que a gente não tem que quebrar padrões? Porque o que nos foi imposto não tem sido saudável. Tem sido tóxico, muita gente oprimida por essa maneira de ver o masculino. Então, está na hora da gente repensar.

Isso é um tema bastante atual também, essa desconstrução do masculino. Eu acho que faz muito esse link com o que esse personagem me faz refletir.

 

“Um Dia Muito Especial” também aborda o machismo e o papel da mulher na sociedade por meio de Antonietta. Como você percebe o equilíbrio entre essas duas histórias de opressão nos dias de hoje? E que papel o homem deve ter nesse momento que vivemos? O homem está em crise?

Pois é, ambos os personagens são oprimidos pelo mesmo regime fascista, embora ambos estejam em lados opostos do mesmo regime.

Eu acho bonito de ver, principalmente na personagem da Antonietta. Não é curioso que uma mulher tão invisibilizada nesse mundo machista, onde ela não tem poder nenhum, força nenhuma, nem escuta nenhuma, justamente um homem gay, com o qual ela achava que era um bicho-papão, no regime em que ela acreditava, foi olhar para ela e, com esse homem, ela teve o seu primeiro orgasmo.

É muito bonito, assim, essa libertação também do desejo feminino, que mostra. Enfim, a peça mostra muito a libertação desse homem e dessa mulher. Eu não quero ficar dando muito spoiler. Agora, se me pergunta se o homem está em crise, eu não sei. Eu acho que a masculinidade está tendo que ser revista.

Esse protótipo que a gente teve como certo até hoje do que é ser masculino tem se mostrado muito tóxico, na minha opinião. E a gente está chegando à conclusão de que tem que rever isso. Então, qual o papel que o homem deve ter nesse momento? Rever essa masculinidade tóxica e ter um olhar bastante afiado sobre o machismo.

Entender que esse machismo estrutural que a gente tem vivido cabe muito ao homem, numa sociedade extremamente patriarcal que a gente sempre viveu, fazer esse exercício de olhar, de consciência, tanto para a masculinidade tóxica que a gente vem vivendo quanto para o machismo e tudo mais.

Essas questões são bastante importantes e urgentes para que os homens, principalmente, olhem para elas, apesar de as mulheres também, como a gente está numa sociedade extremamente estruturada nesse machismo e nessa masculinidade tóxica.

 

O espetáculo chega a São José dos Campos para uma curta temporada. O que você espera que o público leve para casa depois de acompanhar o encontro entre Gabriele e Antonietta?

Eu espero que o público saia do teatro transformado de alguma forma.

Como os personagens se transformam e ampliam a sua visão, eu espero que o público também enxergue pelo viés humano possibilidades de transformação e chame para a responsabilidade a consciência das suas escolhas, mesmo porque a gente quer falar daqui para frente, principalmente em ano de eleição.

Quem são as pessoas que vão ajudar a gente a gerir esse país, a pôr na consciência o que a gente precisa? Quem são os nossos líderes? Em que sociedade a gente quer viver? Isso tudo é feito de uma forma tão leve no espetáculo que é atravessado através da emoção.

Eu acho que o público talvez comece, saia de lá pensando e possa refletir para fazer as mudanças e fazer as transformações que talvez sejam necessárias ou não.

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