A lorenense Luciana Lemes transformou uma paixão que começou ainda na adolescência, na Catedral de Nossa Senhora da Piedade, em uma carreira que a levou a alguns dos mais importantes órgãos da França.
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Ex-organista da Catedral de Lorena, no Vale do Paraíba, ela hoje trabalha com restauração, afinação e manutenção de instrumentos históricos e recentemente mostrou nas redes sociais os bastidores de um trabalho em um dos grandes órgãos da Catedral de Évreux, na Normandia.
O instrumento, construído em 2006 pelo organeiro francês Pascal Quoirin, impressiona pelo tamanho e pela complexidade. Luciana descreveu o órgão como um instrumento “impressionante” e brincou com a estrutura, que exige uma longa subida por escadas até a tribuna especialmente construída para recebê-lo.
“Parece que a gente está entrando em uma nave espacial”, contou a lorenense em um vídeo publicado nas redes sociais.
O órgão tem cerca de 4 mil tubos, cinco planos sonoros, quatro teclados e 53 registros. Para chegar a todas as partes do instrumento, Luciana precisou atravessar uma verdadeira estrutura labiríntica instalada no alto da igreja.
O trabalho realizado por ela incluiu a afinação dos tubos e dos diferentes registros. Em determinado momento, foi necessário subir novamente por uma escada para alcançar uma das partes mais altas do instrumento.
“Agora atravesso o órgão inteiro para acessar o pedal. E olha, preciso manter a forma, porque se engordar, já era”, brincou.
Carreira
A história de Luciana com os órgãos começou em 2008, quando ela tinha 13 anos e estudava piano em Lorena. Incentivada pela mãe, passou a frequentar o coro da Catedral de Nossa Senhora da Piedade.
Foi ali que descobriu que a igreja possuía um órgão histórico do século 19 que precisava de restauração. Na época, não havia no Brasil profissionais suficientes para realizar esse tipo de trabalho.
A descoberta despertou o interesse da adolescente pela chamada organaria, área especializada na construção e restauração de órgãos de tubos.
Luciana se formou em música e dedicou seu trabalho acadêmico ao francês Aristide Cavaillé-Coll (1811-1899), um dos mais importantes construtores de órgãos do século 19. Entre os cerca de 500 instrumentos associados ao nome de Cavaillé-Coll estão órgãos instalados em diferentes países, incluindo os de Lorena e da Catedral de Notre-Dame, em Paris.
A lorenense também atuou como organista do Santuário Nacional de Aparecida antes de ampliar sua formação e se tornar organeira, profissional especializada na restauração desses instrumentos.
Depois de um período de especialização nos Estados Unidos, decidiu seguir para a França em 2021.
“Minha jornada foi sempre a de conseguir a experiência necessária para retornar ao Brasil e ajudar o meu país. Em nenhum momento eu pensei que fosse acabar no projeto de Notre-Dame”, contou.
Trabalho em Notre-Dame
Na França, Luciana conseguiu emprego na Quoirin, uma das oficinas especializadas em órgãos. Foi também nesse período que conheceu Raphaël, filho do fundador da empresa e também organeiro. Os dois tiveram um filho e passaram a viver na região de Avignon.
Em 2022, a empresa foi contratada para participar da restauração do órgão da Catedral de Notre-Dame, em Paris, atingida pelo incêndio de 2019.
O instrumento possui cerca de 8 mil tubos e passou por um complexo processo de desmontagem, limpeza, remontagem, afinação e harmonização. Luciana participou de diferentes etapas do trabalho realizado dentro da catedral durante as obras de reconstrução.
O trabalho exigiu equipamentos especiais de proteção por causa da poeira tóxica de chumbo deixada pelo incêndio.
“É como se cada tubo do órgão fosse uma pessoa, que você ensina a cantar e depois afina, faz com que dê a nota que você está esperando, com o timbre necessário. São horas de trabalho duro”, explicou.
Além da complexidade do instrumento, outro desafio foi o ambiente de obras. Martelos, picaretas e outros equipamentos eram usados simultaneamente dentro da catedral, enquanto a equipe trabalhava para deixar o órgão pronto para a reabertura do templo.
“Eu ainda não consigo assimilar que fiz parte disso. Tenho flashbacks de entrar na catedral, subir a escadaria”, afirmou Luciana.
Órgão voltou a tocar após incêndio
O órgão de Notre-Dame voltou a ser ouvido durante a cerimônia de reabertura da catedral, em dezembro de 2024, após cinco anos de trabalhos de reconstrução.
Na ocasião, o arcebispo de Paris, Laurent Ulrich, pronunciou as palavras “Órgão, acorda”. Em seguida, o organista Thierry Escaich executou as primeiras notas do instrumento desde o incêndio.
Pouco antes da reabertura, Escaich havia experimentado o console do órgão pela primeira vez após a restauração. Mesmo com o trabalho ainda em fase final, classificou o som como “genial”.
Para Luciana, participar da recuperação de um dos órgãos mais conhecidos do mundo representa o ponto alto de uma trajetória iniciada em uma igreja do Vale do Paraíba.
“Quero mostrar que é possível, sabe? É só correr atrás. O mundo é tão pequenininho. Tem que tentar”, afirmou.
De Lorena para o mundo
A história da lorenense une música, patrimônio histórico e uma profissão pouco conhecida do grande público. Da descoberta de um órgão antigo na igreja de sua cidade natal ao trabalho em Notre-Dame e em outros templos franceses, Luciana transformou a curiosidade despertada ainda na adolescência em uma especialização rara.
Hoje, além de atuar em instrumentos históricos, ela compartilha nas redes sociais detalhes de seu trabalho e mostra ao público estruturas que normalmente permanecem escondidas dentro de igrejas e catedrais.