No Vale, saúde ainda se mede em quilômetros
Nasci em Cruzeiro, na rua João Novaes, a poucos passos da Igreja Santa Cecília. Meus pais, Jorge e Helena, tinham uma loja de tecidos no centro, a Casa Santa Cecília, e eu cresci ali dentro, entre o balcão e a rua.
Quem cresce no comércio de cidade pequena aprende cedo uma regra que nunca mais some: quem entra com um problema não é número, é gente esperando ser atendida.
Levei essa régua para quase duas décadas de administração pública federal, boa parte delas na saúde. E foi lá que entendi por que, no Vale do Paraíba, a saúde ainda é medida em quilômetros.
Não é uma imagem literária. É a rotina de muita gente daqui.
O paciente de Cruzeiro, de Lavrinhas, de Silveiras ou de Areias que precisa de um exame mais complexo, de uma consulta com especialista ou de uma sessão de tratamento oncológico costuma acordar de madrugada. Pega uma condução, viaja, é atendido e volta no mesmo dia. Chega em casa à noite pior do que saiu, e não por causa do procedimento. Por causa da estrada.
O Vale tem um sistema de saúde razoavelmente estruturado nos polos e frágil nas bordas. São José dos Campos e Taubaté concentram serviço de média e alta complexidade. As cidades menores dependem de vaga, de transporte e de agenda. Quando falta qualquer um dos três, o que sobra é espera.
Três coisas que travam esse sistema, e que eu vi de perto
A primeira é o contrato. Boa parte dos hospitais e unidades públicas do país é administrada por organizações sociais contratadas, remuneradas por meta. Se a meta é baixa, se ninguém audita e se o resultado nunca é conferido, a fila para e o repasse continua saindo. Não é falta de dinheiro: o dinheiro sai todos os meses.
A segunda é a informação escondida. O paciente não sabe em que posição da fila está, nem quanto vai esperar, nem por que alguém que chegou depois foi atendido antes. Fila pública, com posição e data prevista, não acelera o sistema por mágica, mas o que todos veem passa a ser cobrado.
A terceira é a fixação de profissional. Entre 2016 e 2018 chefiei, no Ministério da Saúde, a secretaria responsável por formar e levar profissional para onde ele falta. Aprendi que formar especialista no grande centro e esperar que ele se mude sozinho para o interior nunca funcionou.
Nesse mesmo período, segundo os registros da própria secretaria, a universidade aberta do SUS já havia formado perto de 192 mil profissionais com curso gratuito e a distância, e o país mantinha 41 escolas técnicas públicas de saúde. É uma estrutura que sustenta o atendimento de milhões de pessoas e sobre a qual quase não se fala.
O que o Vale precisa não é inédito
Casa de acolhimento perto do hospital de referência, para quem faz tratamento longo não precisar viajar todos os dias. Isso já existe em outros estados.
Teleconsulta e laudo a distância de verdade, para que o exame seja feito na cidade e interpretado onde houver especialista. A tecnologia está pronta há anos.
E residência médica no interior, com condição para o profissional permanecer depois de formado.
Nenhuma dessas três coisas depende de invenção. Depende de decisão, de contrato bem feito e de cobrança.
São Paulo tem 645 municípios e elege 70 dos 513 deputados federais. Mas o estado não se explica pela capital. Quem faz o trajeto de Cruzeiro até um hospital de referência sabe disso melhor do que qualquer estatística.
Saúde não deveria se medir em quilômetros. Deveria se medir em data marcada.
* Rogério Zeraik Abdalla é engenheiro e administrador, natural de Cruzeiro. Integrou a diretoria da Conab, foi secretário no Ministério da Saúde entre 2016 e 2018 e diretor-adjunto da Anvisa. É candidato a deputado federal por São Paulo.