Quem me acompanha nas redes sociais (@fran.galvao) sabe que estou em Nova York e, entre uma caminhada, uma pesquisa de tendências e outra, tive a oportunidade de acompanhar de perto o US Open. E talvez por isso eu tenha prestado ainda mais atenção a uma discussão que tomou conta da internet nos últimos dias: o look de Virginia Fonseca no Grande Prêmio da Espanha de Fórmula 1.
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O assunto foi tratado como uma grande “gafe fashion”. Mas, para mim, a questão mais interessante não é dizer se a roupa era bonita ou feia, sensual demais ou inadequada. É observar o que existe por trás dessa discussão: a relação cada vez mais estreita entre esporte, moda, entretenimento e construção de imagem.
O esporte deixou há muito tempo de acontecer apenas dentro das quadras, pistas e estádios. Hoje, ele também acontece nas redes sociais, nas campanhas publicitárias, nas ativações de marcas, nos camarotes, nos paddocks e, claro, no que as pessoas vestem para estar ali.
Basta olhar para o tênis. Estar no US Open é também observar uma espécie de desfile espontâneo. Não existe um uniforme para quem está na arquibancada, mas existe um código visual que se constrói naquele ambiente: peças esportivas reinterpretadas, alfaiataria mais descontraída, vestidos, saias plissadas, polos, bonés, tênis, bolsas, óculos e acessórios de luxo convivendo no mesmo espaço. Eu fui de loungewear e rateira nos pés - confortável, a prova do calor que estava fazendo e interessante.
O chamado tenniscore não nasceu ontem, mas continua sendo uma referência forte justamente porque o esporte oferece à moda um repertório visual pronto. A saia plissada, a polo, o tricô, a meia aparente, o branco, as listras, os tênis e até a estética “clubinho” podem sair da quadra e ganhar a rua. No US Open deste ano, a própria imprensa de moda destacou como o torneio se transformou também em palco para estilo, luxo e expressão pessoal.
E isso acontece com vários esportes. A academia foi para o supermercado. O tênis de corrida virou peça de styling. A jaqueta de motocross aparece longe da motocicleta. O futebol influencia modelagens, camisas e acessórios (quem lembra da chuteira rosa choque na Copa?). É o chamado sportswear deixando de ser apenas roupa para praticar esporte e se transformando em linguagem de moda.
E existe uma razão para isso funcionar tão bem: o esporte tem identidade. Tem códigos, símbolos, cores, uniformes, performance, pertencimento e personagens. A moda bebe nessa fonte para criar desejo, novidade e, principalmente, narrativa.
E aí voltamos à Virginia.
Seu look para acompanhar Vini Jr. no GP da Espanha fazia referências ao universo motocross, com cores, recortes, barriga à mostra, couro e uma estética bastante sensual. O visual chamou atenção justamente porque produzia uma mensagem muito forte.
Mas o paddock da Fórmula 1 é um ambiente plural, ali convivem esporte, luxo, celebridades, muitos negócios, moda e uma quantidade absurda de câmeras.
Por isso, a comparação com outras mulheres presentes no mesmo ambiente apareceu rapidamente. Muitas optaram por produções sofisticadas, femininas, contemporâneas e também sensuais, mas com outra leitura de contexto. E aqui está o ponto que considero mais importante: não existe problema em chamar atenção.
Aliás, para uma influenciadora, ser vista pode ser estratégia, mas a questão é entender qual mensagem você quer que seja lembrada depois que as pessoas olharem para você.
O problema não está na sensualidade. Nem no recorte, nem na ousadia e nem na barriga a mostra (aliás me pergunto: se caso eu tivesse uma barriga daquele jeito se também não a colocaria a mostra...rsrsrsr....será??). O problema está quando a roupa fala tão alto que não deixa espaço para as outras mensagens.
Outro ponto que quero destacar ainda na temática é que você não precisa se vestir como se estivesse indo para a Fórmula 1, para o US Open ou para qualquer outro evento esportivo para entrar no clima do sportwear. Mas pode observar como essas referências chegam até o seu guarda-roupa.
Talvez aquela camiseta polo que você associa ao esporte possa ganhar uma calça de alfaiataria. A saia plissada pode sair do tênis e encontrar uma camisa e uma terceira peça. O tênis esportivo pode entrar em um look mais sofisticado, de repente quebrando a formalidade de uma calça e blazer em alfaiataria. Uma jaqueta inspirada no automobilismo pode aparecer com uma bermuda em tecido e uma bolsa mais feminina.
É assim que tendência vira estilo: quando você não copia a referência, mas entende a linguagem e faz uma tradução para a sua vida. E talvez seja justamente por isso que eu gosto tanto de observar pessoas em lugares como o US Open: ali, entre uma partida e outra, você percebe que estilo também é uma forma de participar da conversa.
No fim, esporte e moda têm mais em comum do que parece, ambos trabalham com performance, identidade, disciplina, desejo e espetáculo. A diferença é que, no esporte, você entra em campo para jogar e na moda, todos os dias, você entra em cena para comunicar quem é.