BIOGRAFIA

De São José, Luiz Paulo Costa foi preso e torturado na ditadura

Por Da redação | São José dos Campos
| Tempo de leitura: 4 min
Cleverson Nunes/CMSJC
Luiz Paulo Costa e seu livro
Luiz Paulo Costa e seu livro "A Cadeira do Dragão - Memórias da Ditadura Militar", publicado em 2022

O jornalista e ex-vereador Luiz Paulo Costa morreu na manhã desta quinta-feira (17), aos 83 anos, em Caraguatatuba, onde morava atualmente. Ele enfrentava Alzheimer e morreu por volta das 6h30. Ao longo de quase seis décadas, construiu uma trajetória ligada ao jornalismo, à política, à literatura e à preservação da memória de São José dos Campos.

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Luiz Paulo também ficou marcado por um dos períodos mais traumáticos de sua vida: em 1970, durante a ditadura militar, foi preso por agentes do DOI-CODI, levado para São Paulo e torturado. Permaneceu encarcerado por mais de 140 dias e sofreu graves agressões físicas, que deixaram sequelas.

O corpo será velado nesta sexta-feira (18), a partir das 9h, na Câmara Municipal de São José dos Campos. O sepultamento está previsto para as 14h, no Cemitério Padre Rodolfo Komorek, no Centro da cidade.

Luiz Paulo deixa a esposa, uma filha, um filho e netos.

Prisão e tortura durante a ditadura

Em 1970, quando trabalhava no Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), Luiz Paulo foi preso sob acusação de ter ligação com estudantes que tentavam reorganizar o Partido Comunista em São José dos Campos.

Depois de ser levado para São Paulo, passou por interrogatórios e sessões de tortura. Foi encapuzado e submetido a choques elétricos, agressões físicas e outros métodos de violência utilizados contra presos políticos durante o regime militar.

Entre as torturas sofridas, esteve a chamada “cadeira do dragão”, instrumento utilizado para aplicar choques elétricos. As agressões provocaram consequências físicas, como tímpano perfurado, dentes quebrados e lesões na coluna.

Luiz Paulo permaneceu preso por mais de 140 dias em diferentes locais, entre eles a Base Aérea de Santos, o navio-prisão Raul Soares, o DEOPS (Departamento de Ordem Política e Social) e o DOI-CODI, em São Paulo.

Após ser libertado, precisou passar por tratamento médico na Beneficência Portuguesa e, posteriormente, no Hospital das Clínicas, devido às lesões provocadas pelas agressões.

Anos depois, decidiu registrar a experiência no livro “A Cadeira do Dragão – Memórias da Ditadura Militar”, publicado em 2022.

Na obra, Luiz Paulo descreveu os momentos de violência que enfrentou e buscou preservar sua versão dos acontecimentos para as novas gerações.

“Eu que só conhecia a democracia pensava que a liberdade era como o ar, que nunca faltaria, aí perdi a liberdade”, afirmou ao recordar o período.

Quando foi preso pela primeira vez, tinha 21 anos.

Do jornalismo à política

A trajetória profissional de Luiz Paulo começou ainda jovem. Em 1965, iniciou a carreira na Rádio Piratininga. Depois, trabalhou como redator do jornal ValeParaibano e também passou pela Rádio Clube.

Ele ainda atuou como correspondente do jornal O Estado de S. Paulo em São José dos Campos, acompanhando acontecimentos relevantes da cidade e da região.

Em 1976, retomou a atividade jornalística e iniciou uma longa trajetória na Câmara Municipal de São José dos Campos. Naquele mesmo ano, foi eleito vereador, permanecendo ligado ao Legislativo por aproximadamente duas décadas.

Durante o período, a Arena, partido de sustentação do regime militar, tentou cassar seu mandato. A iniciativa, porém, não prosperou porque Luiz Paulo não havia perdido os direitos políticos.

A atuação política foi apenas uma parte de uma trajetória que também envolveu movimentos sindicais e diferentes momentos da vida partidária.

Memória de São José

Luiz Paulo dedicou parte importante da vida ao registro da história e da cultura de São José dos Campos. Autor de seis livros, escreveu sobre diferentes aspectos da cidade e também transformou a própria experiência durante a ditadura em testemunho histórico.

Ao falar sobre o livro que reúne suas memórias da prisão, explicou que havia sido procurado por mais de 30 escritores interessados em conhecer sua história. A partir dessas conversas, decidiu registrar pessoalmente o que havia vivido.

A proposta, segundo ele, era contar os acontecimentos pela perspectiva de quem esteve diretamente envolvido, desde a prisão em casa, passando pelas celas e sessões de tortura, até a candidatura a vereador.

A literatura, assim, se somou ao jornalismo como uma forma de preservar episódios da história de São José dos Campos e do país.

Academia Joseense de Letras

Além da carreira no jornalismo e na política, Luiz Paulo também teve participação na vida cultural da cidade.

Ele ocupava a Cadeira 4 da Academia Joseense de Letras, cujo patrono é Francisco Pereira da Silva, conhecido como Chico Triste.

Sua trajetória reuniu diferentes dimensões da história de São José dos Campos: a imprensa, a política, a cultura e a preservação da memória local.

A morte de Luiz Paulo Costa encerra uma trajetória marcada pela atuação pública e também pelo testemunho de um período de repressão política que marcou a história brasileira.

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